As incertezas do comércio global

Sem solução para a guerra comercial e o Brexit, retomada do dinamismo é improvável

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2020 | 03h00

O ano de 2019 foi marcado por um acúmulo de restrições e tensões comerciais que intensificaram as incertezas sobre o mercado e a economia mundial. O Monitoramento anual da Organização Mundial do Comércio (OMC) permite mensurar esta intensificação.

O volume de medidas restritivas ao comércio entre os membros da OMC continua historicamente alto. O estoque de restrições implementadas desde 2009 afeta, no total, 7,5% das importações mundiais. Mas nos últimos dois anos a tendência à imposição de restrições iniciada após a crise financeira dos anos 2008-2009 se acentuou agudamente. Entre outubro de 2018 e outubro de 2019, o volume do comércio afetado por novas medidas restritivas foi estimado em US$ 746,9 bilhões, o maior desde 2012. Em relação aos US$ 588,3 bilhões do ano anterior, isso representa um aumento de 27%.

Nesse período os membros da OMC implementaram 102 novas medidas restritivas, incluindo aumento de tarifas, restrições quantitativas, procedimentos aduaneiros mais duros e imposições de taxas de importação e impostos sobre exportação. Os setores mais afetados pelas novas restrições foram óleos e minerais combustíveis (17,7%), maquinário e aparelhos mecânicos (13%), maquinário e componentes elétricos (11,7%) e metais preciosos (6%).

“Estes dados deveriam preocupar seriamente os membros da OMC e a comunidade internacional como um todo”, disse o diretor-geral da Organização, Roberto Azevêdo. “Os níveis historicamente altos de medidas restritivas estão prejudicando o crescimento, a criação de empregos e o poder de compra ao redor do mundo.”

Em parte devido a fatores cíclicos e estruturais e em parte devido às tensões comerciais persistentes, incluindo as indefinições quanto ao desfecho do Brexit e as mudanças nas políticas monetárias dos países desenvolvidos, o crescimento econômico se desacelerou na primeira metade de 2019. A piora das expectativas de desempenho do comércio levou os economistas da OMC a rebaixar a revisão de suas projeções para 2019 e 2020. Até abril se esperava que o comércio de mercadorias crescesse 2,6% em 2019. Agora se estima que crescerá 1,2%, a menor taxa de expansão desde a crise de 2008-2009. Já o crescimento inicial de 3% projetado para 2020 foi rebaixado para 2,7%.

O Relatório fornece outras evidências da intensificação das incertezas. No período analisado, 230 questões e preocupações comerciais foram suscitadas nos órgãos da OMC pelos seus membros, 8% a mais do que no ano anterior. Isso indica não só uma repetição e irresolução de certos problemas, como o surgimento de novos. Um índice de incerteza econômica baseado na frequência de determinadas palavras chave na imprensa atingiu 350,8 em agosto. Foi o maior nível já registrado, e é extremamente alto se comparado aos 100 pontos que representam o nível “médio” de incerteza entre 1997 e 2015.

“Uma forte liderança coletiva por parte dos membros seria uma contribuição importante em relação à incerteza crescente, encorajando investimentos e impulsionando o comércio e o crescimento econômico”, disse Azevêdo. “Sem esta ação, no entanto, tendências desfavoráveis poderiam se agravar.”

Os EUA e a China têm acenado desde outubro a um acordo comercial limitado, pelo qual os EUA deixariam de aumentar mais as tarifas sobre bens chineses enquanto a China, em contrapartida, compraria mais produtos agrícolas americanos. Essa trégua pode representar um relaxamento das tensões comerciais, que poderia garantir algum potencial de melhora nos fluxos comerciais. O próprio Brexit, com o triunfo dos conservadores na última eleição para o Parlamento britânico, sai da situação de impasse total na qual estava até então. Mas, embora ele se encaminhe decisivamente para um desfecho, não se sabe quão longo e árduo será o processo. Enquanto não houver uma solução permanente para esses conflitos, é improvável que o comércio mundial retome o seu dinamismo anterior.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.