As lições ignoradas da pandemia

Há escassa evidência de que os países estejam aprendendo as lições certas a partir da pandemia, a despeito da morte de um número tão grande de pessoas

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2021 | 03h00

A pandemia de covid-19 já matou cerca de 5 milhões de pessoas no mundo inteiro (mais de 607 mil apenas no Brasil). De longe, esse é o maior dos males infligidos pelo coronavírus. Mas, como se isso não bastasse, a crise sanitária também arruinou sistemas de saúde, destruiu economias mais frágeis e privou milhões de crianças e jovens pobres de acesso à educação, comprometendo o futuro de uma geração em grau ainda por ser devidamente mensurado.

Em suma, a pandemia criou formas de desigualdade econômica e social e aprofundou outras já existentes, não só em cada um dos países afetados, o Brasil entre eles, mas em nível global. Quão profundas serão as desigualdades entre cidadãos e países no futuro próximo – vale dizer, por quanto tempo perdurarão os efeitos perversos da crise sanitária antes de uma recuperação mais equânime e consistente – dependerá fundamentalmente das lições aprendidas por governos e organizações da sociedade civil a partir dessa tragédia. Há fortes razões para preocupação.

O recém-publicado relatório anual do Conselho de Monitoramento de Preparação Global (GPMB, na sigla em inglês), criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Banco Mundial para monitorar e cobrar ações de preparação dos países para responder a crises globais na área da saúde, indica que o mundo está “lamentavelmente despreparado” não apenas para dar cabo da atual pandemia, mas, principalmente, para lidar melhor com os efeitos da próxima, cuja eclosão é mera questão de tempo.

Os membros do conselho concluíram que há “escassa evidência” de que os países estejam aprendendo as “lições certas” a partir da crise sanitária global, a despeito da morte de um número tão grande de pessoas. Ao jornal Financial Times, um dos líderes do GPMB, o senegalês Elhadj As Sy, destacou que os avanços científicos no desenvolvimento das vacinas são motivos de orgulho, mas que todos “devemos nos sentir profundamente envergonhados diante das múltiplas tragédias ocasionadas pela pandemia, como a acumulação de vacinas”.

No relatório, o GPMB classifica como “exemplo mais flagrante de disfunção” no enfrentamento global da pandemia a competição desenfreada entre países por acesso às vacinas, o que, na visão do conselho, criou um abismo entre a imunização em países ricos e pobres que, ao fim e ao cabo, favoreceu o surgimento de novas variantes do coronavírus, o agravamento da pandemia e o aumento do número de mortos. De forma direta, com base em ciência e em linguagem elegante, o que o GPMB está dizendo é que lideranças globais simplesmente ignoraram a essência do que vem a ser uma pandemia.

A profunda desigualdade de acesso às vacinas entre países ricos e pobres já seria reprovável do ponto de vista moral. No entanto, a diferença entre porcentuais de cidadãos vacinados é um risco sanitário que ameaça a segurança e a economia globais. Por óbvio, uma pandemia que se alastrou pelos cinco continentes só estará controlada quando todos os países tiverem seus nacionais vacinados em escala que garanta a chamada imunidade coletiva. O GPMB registra que, em média, 63% dos cidadãos de países de alta renda já receberam ao menos uma dose da vacina contra a covid-19. Nos países de baixa renda, o porcentual despenca para 4,5%.

Como o relatório aponta, a próxima pandemia viral é questão de tempo. Superado o esforço inicial descomunal para preparar os sistemas locais de saúde para a demanda inédita, salvar tantas vidas quanto foi possível e desenvolver vacinas contra o coronavírus, é primordial investigar as causas da atual pandemia e planejar as respostas a uma nova emergência sanitária. A própria OMS, que, com razão, cobra mais governança e transparência dos países, não lidou como deveria com a opacidade do governo da China. Até hoje, não se sabe exatamente a origem do Sars-Cov-2. Como ter segurança de que tragédias com desdobramentos até mais nefastos não possam se abater sobre o mundo em questão de meses ou anos?

Se esses passos não forem dados, os milhões de mortes na pandemia de covid-19 terão deixado um rastro de dor, luto e indignação em vão. O mundo precisa de esperança para seguir adiante.

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