As muitas vítimas da Cracolândia

História da maioria dos dependentes embute a degradação de famílias que não têm o mínimo para viver

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2022 | 03h00

Por trás de muitos indivíduos submetidos à degradação física e emocional no umbral da Cracolândia há famílias inteiras que também precisam de amparo. O Estado e as organizações da sociedade civil não podem lhes faltar neste momento dramático de suas vidas. Os usuários de crack não são as únicas vítimas do flagelo da dependência química.

O Estadão publicou há poucos dias a história candente de uma mãe que luta arduamente para tirar sua filha do chamado “fluxo”, o movimento de pessoas que se concentram nas ruas da região central da capital paulista para consumir crack. Muitos anos após ela mesma ter conseguido se livrar do vício em álcool, crack e cocaína “com a ajuda de Deus”, Janaína Xavier, de 43 anos, hoje tenta salvar a própria filha, Aline Xavier, de 29 anos, da dependência que corrói não só o seu rosto jovem, mas suas perspectivas de futuro.

“Não tive aquele pulso de mãe para educá-la. Se eu fosse uma mãe mais presente, que não olhasse tanto para a droga e para o álcool, ela não estaria nessa situação”, disse Janaína ao Estadão. “Era a mãe drogada de um lado e a filha drogada de outro”, confessou a mulher, não escondendo a dor adicional causada pelo sentimento de culpa por ver a filha consumir drogas desde os 13 anos.

Decerto há exceções, mas a desestruturação familiar é a causa raiz da esmagadora maioria dos casos de dependência química. Famílias mais coesas, amorosas e com condições materiais mínimas para viver com dignidade são muito menos vulneráveis ao flagelo das drogas do que famílias desagregadas, por quaisquer razões. Um estudo de 2019 realizado pela Unidade de Pesquisas de Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que 80% dos dependentes químicos que frequentam a Cracolândia abandonaram suas casas. Os especialistas apontam que conflitos familiares são a principal razão alegada pelos usuários para justificar sua presença na região.

“Muitas vezes, a família interpreta que apenas o usuário é o problema e prefere não tratar a dinâmica familiar. Com isso, ela os mantém a distância, com visitas esporádicas”, disse ao jornal Maria Angélica Comis, coordenadora do centro de convivência É de Lei. A constatação dá a dimensão do desafio de pôr fim ao flagelo da Cracolândia, que há décadas segue como uma chaga aberta no coração da cidade mais rica da América Latina.

A Cracolândia tem sido tratada como uma questão eminentemente criminal. Não há dúvida de que a repressão ao tráfico de drogas é necessária, mas é fundamental que os agentes de segurança nas ruas – orientados por uma compreensão humanista que deve cobrir toda a cadeia de comando – saibam muito bem distinguir traficantes e dependentes químicos. Na maioria das vezes, estes últimos são tratados como criminosos, não como doentes.

De forma mais ampla, é dever dos governantes nas três esferas administrativas, criar, no limite de suas responsabilidades, condições para reduzir o número de brasileiros que vivem em condições miseráveis. Não raro, muitos daqueles conflitos familiares que levam os usuários à Cracolândia têm origem na falta do básico para uma vida digna dentro de casa.

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