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As ofensas de Bolsonaro a quem investiga

CPI da Covid revelou constrangedores aspectos da atuação do governo na pandemia

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 03h00

Mesmo em internação hospitalar, Jair Bolsonaro criticou a CPI da Covid. Tinha cancelado a sua live semanal, mas não se absteve de ofender os três principais integrantes da comissão. “No circo da CPI, Renan, Omar e Saltitante (referência ao senador Randolfe Rodrigues) estão mais para três otários que três patetas”, escreveu na quinta-feira passada o presidente em sua conta no Twitter.

A agressividade do presidente Bolsonaro, descumprindo sua promessa da semana passada de que daria uma trégua nos ataques contra os outros Poderes, mostra que a CPI da Covid, em seus três primeiros meses de funcionamento, vem cumprindo seus objetivos. O trabalho investigativo dos senadores foi capaz de revelar aspectos constrangedores da atuação do governo federal na pandemia.

Há ainda muito a investigar, mas alguns fatos já são de conhecimento público. O atraso na vacinação contra a covid não se deu apenas por uma questão ideológica. Enquanto postergou e dificultou as tratativas diretas com os fabricantes de vacinas, o governo de Jair Bolsonaro deu preferência à negociação de vacinas por meio de empresas intermediárias.

“Esse governo não quis comprar vacina a 10 dólares da Pfizer, mas quis comprar a Covaxin a 15 dólares”, disse o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Aparentemente inexplicável, essa diferença de tratamento por parte do governo federal torna-se a cada dia mais compreensível para a população. São crescentes os indícios de que negociações com empresas intermediárias envolveram pedido de propina – ou “comissionamento”, como afirmou Cristiano Carvalho, representante da Davati Medical Supply no Brasil, em seu depoimento aos senadores no dia 15 de julho.

De fato, a atuação do governo federal na pandemia é muito peculiar. No mesmo período em que, sem provas, Jair Bolsonaro acusava governadores estaduais de desviarem verbas da saúde, sabe-se agora, em função da CPI da Covid, que o presidente da República foi informado a respeito de mau uso de recursos públicos no próprio Ministério da Saúde.

Confirmando ter recebido informações do deputado Luis Miranda (DEM-DF) sobre a compra da vacina Covaxin, Jair Bolsonaro disse que encaminhou o caso ao então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. A pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), a Polícia Federal abriu inquérito no dia 12 de julho para investigar se Jair Bolsonaro praticou crime de prevaricação nesse episódio.

O mais estranho é que, mesmo com todos os indícios de malfeitos revelados pela CPI da Covid, Jair Bolsonaro não tenha, em nenhum momento, defendido a apuração dos fatos. De forma descarada e cada vez com mais violência, o presidente ataca quem expõe fatos relativos ao Ministério da Saúde.

Tem-se assim o completo abandono de todo e qualquer discurso de combate à corrupção. Até internado num hospital, Jair Bolsonaro volta-se contra quem tenta expor negociatas e sobrepreço na compra de vacinas. No último mês, a CPI da Covid trouxe elementos para intuir a existência de quadrilhas operando na pasta de Eduardo Pazuello.

A agressividade de Jair Bolsonaro depois de cada escândalo exposto pela CPI da Covid é ainda mais embaraçosa tendo em vista o inquérito da Polícia Federal para investigar o presidente da República por crime de prevaricação. Com as ofensas que profere, Jair Bolsonaro reforça os indícios contra si mesmo. Se, de forma pública e reiterada, Jair Bolsonaro coloca-se frontalmente contrário a toda investigação de eventuais malfeitos em seu governo, é no mínimo estranho pensar que a portas fechadas, longe dos olhos do público, Jair Bolsonaro teria apoiado e determinado as diligências investigativas a que ele tanto se opõe em público.

Por força do recesso parlamentar, a CPI da Covid voltará aos seus trabalhos no dia 3 de agosto. Há muito a ser apurado. Jair Bolsonaro sempre esteve próximo das questões relativas às vacinas anticovid, determinando publicamente o que podia e o que não podia comprar. Suas recentes ofensas confirmam quanto o tema o afeta direta e pessoalmente.

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