As preocupações da ONU

O estado de espírito da ONU é de uma apreensão moderadamente otimista

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 03h00

A dez anos do prazo para a realização dos seus Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o estado de espírito, por assim dizer, da ONU é de uma apreensão moderadamente otimista. A julgar por seus relatórios econômicos e sociais, a ONU está apreensiva porque, “entre prolongadas disputas comerciais e vastas incertezas políticas, a economia mundial viu uma deterioração significativa e ampla ao longo do último ano” e porque megatendências como a inovação tecnológica, as mudanças climáticas, a urbanização e a imigração têm contribuído para aumentar as desigualdades. Por outro lado, está otimista, porque essas tendências não são fatais: a combinação de políticas domésticas e cooperação internacional pode canalizá-las a favor de um mundo mais sustentável e equânime.

O crescimento do PIB mundial em 2019 não só foi o mais baixo desde a crise de 2008, como há uma insatisfação crescente com a qualidade social e ambiental desse crescimento. Os altos e baixos das tensões comerciais e tarifárias abasteceram incertezas políticas, desidrataram investimentos e fizeram com que o crescimento do comércio fosse o menor em uma década.

A política monetária pós-crise financeira parece ter atingido seus limites. A médio prazo o crescimento da produtividade deve permanecer baixo. E os riscos podem se intensificar, a depender das disputas comerciais, dos atritos geopolíticos e dos impactos climáticos. “Compostos pelo aprofundamento da polarização política, do crescente ceticismo sobre os benefícios do multilateralismo e do espaço limitado de políticas globais, esses difíceis contraventos de curto prazo têm o potencial de infligir danos severos e duradouros”, diz o Departamento de Questões Econômicas da ONU.

Os desafios imediatos são amplificados quando se constata que desde 1990 a desigualdade cresceu na maioria dos países de renda alta e média, cobrindo mais de dois terços da população global. A boa notícia, por outro lado, é que na América Latina, África e Ásia a desigualdade, em geral, declinou.

Nesse aspecto, a revolução tecnológica tem imenso potencial de impacto – para o bem ou para o mal. Contrárias ao temor generalizado, as evidências mostram que os avanços tecnológicos não têm causado desemprego em massa. Mas têm, sim, afetado desproporcionalmente os trabalhadores menos qualificados. Ademais, os ganhos têm sido capturados por um pequeno número de empresas. A tendência é que eles promovam mais polarização e desigualdade de renda na força de trabalho, a menos que se invista mais em capacitação, em apoios às transições profissionais e na eliminação das divisões tecnológicas entre os países.

Pela primeira vez na história a população urbana é maior que a rural. As cidades catalisam crescimento econômico, inovação e emprego, mas são mais desiguais do que o campo. Um em cada quatro habitantes de cidades vive em favelas. Na redução da desigualdade urbana, a ONU destaca quatro ações: assegurar direitos de moradia; melhorar o transporte público; promover acesso ao emprego; e fortalecer as administrações locais.

A imigração simboliza a desigualdade global, mas pode ter um papel na sua redução, especialmente se os imigrantes forem incentivados a reverter parte de seus ganhos de capital e conhecimento para seus países de origem.

Essas megatendências, enfim, podem trazer ganhos distributivos se administradas a partir de três “blocos de construção”: a promoção do acesso às oportunidades; políticas econômicas voltadas para a distribuição equitativa de renda; e programas de inclusão de grupos desfavorecidos.

Em meio a uma agenda de reformas, o Brasil tem a oportunidade de consolidar tais blocos em sua reconstrução. Contudo, “nenhum destes temas pode ser abordado unilateralmente”, alerta a ONU. “Embora o sistema multilateral precise de ajustes, os desafios globais atuais pedem que seja antes fortalecido do que dispensado por completo.”

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