As redes sociais e a polarização

Hiper-representação de minorias extremistas tornou ambiente digital distorcido e tóxico.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 03h00

Há pouco mais de uma década as redes sociais emergiram prometendo ser uma poderosa ferramenta para estimular a participação democrática e as associações cívicas. Mas, na prática, tudo indica que a hiper-representação de minorias extremistas tornou o ambiente digital altamente distorcido e tóxico. Um estudo recente do think tank More In Common sobre os eleitores britânicos – cujo resultado pode ser generalizado, ao menos para outras democracias liberais – mostra que as chamadas “guerras culturais” são travadas por uma pequena minoria, mas uma minoria vociferante e ultra-atuante nas redes sociais.

Com base em pesquisas eleitorais e dados acadêmicos, o estudo constata que no Reino Unido uma parcela de 12% dos eleitores, seis vezes mais ativos do que outros setores da população, corresponde a 50% dos usuários das redes. Este contingente se divide em duas “tribos” – “ativistas progressistas” e “conservadores linha-dura” –, que são justamente as menos dispostas a concordar com a necessidade de consensos.

O hiperpartidarismo impõe uma série de desafios. Ele abastece a desinformação e é retroalimentado por ela, desencadeando uma espiral de degradação das políticas públicas e das próprias instituições democráticas. Além disso, há o risco de que o extremismo nas redes sociais esteja afastando as pessoas da política. De resto, há o problema do protagonismo dos próprios políticos. As elites políticas podem amplificar a polarização das massas, assim como a desinformação, estimulando a descrença nos organismos de mídia profissionais por meio do impulsionamento de fontes menos confiáveis.

Parte desta hostilização digital é explicável pela mera psicologia humana. Numa conversa privada, expressões de raiva tendem a afastar os interlocutores, mas quando há uma audiência maior a cólera pode impulsionar as ideias exaltadas. Um estudo do Pew Research Center revelou que publicações que exibem “discordância indignada” no Facebook recebem duas vezes mais interações do que outros tipos de conteúdo.

Para agravar esse quadro, as redes sociais são projetadas para criar as chamadas “bolhas” de informação e opinião, perpetuando vieses e reduzindo as oportunidades de um discurso saudável. Assim, o próprio mecanismo de interação de redes tende a amplificar discursos de ódio e assédio.

Não que as mídias sociais sejam intrinsecamente nocivas. Elas mesmas não inventaram a polarização, só a intensificaram. Mas está claro que certos vícios precisarão ser sanados.

Algumas reformas vêm sendo ensaiadas pelas próprias plataformas. Um exemplo é a “desmetrificação”, ou seja, a redução da preeminência de “likes” no mecanismo de disseminação das publicações. É um modo de reduzir os incentivos aos arroubos pseudomoralistas e fazer com que cada publicação seja avaliada por seu próprio mérito, em vez de submetê-la a uma contínua disputa de popularidade.

Outro movimento importante que vem sendo deliberado em legislaturas de todo o mundo é a redução dos perfis não verificados. O propósito é limitar o arsenal das facções extremistas, como trolls e robôs. As redes sociais podem se tornar menos tóxicas, se a abertura de perfis for condicionada à verificação da identidade do usuário, ainda que as publicações possam continuar a ser feitas sob anonimato.

Diversos experimentos nas redes mostram que um modo de reduzir o contágio das informações de baixa qualidade é simplesmente adicionando alguns “freios” à impulsividade dos usuários, por exemplo, por meio de algoritmos de Inteligência Artificial que, ao identificar um conteúdo potencialmente tóxico, alertam o usuário, indagando: “Você tem certeza de que quer publicar isso?”. Obviamente esses algoritmos devem eles mesmos ser auditados por especialistas a fim de que sejam eliminados vieses de programação.

A missão originária das redes sociais, sintetizada na fórmula do Facebook “tornar o mundo mais aberto e conectado”, pode ser resgatada. Mas claramente isso exigirá um amplo debate público sobre a regulação das redes, seja por si mesmas, seja pelo Estado.

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