As vítimas da indiferença

Ao que parece, o evidente crescimento da população que dorme nas ruas, sobrevive de esmolas e faz fila para comprar ossos não incomoda muita gente em Brasília

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 00h00

Qualquer morador das grandes cidades do País que não tenha seus olhos embaçados pela indiferença é capaz de notar o aumento significativo do número de pessoas vivendo nas ruas. Nem as cidades mais ricas do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, deixam de expor ao olhar mais sensível este pungente retrato de uma tragédia social.

Os menos desafortunados ainda conseguem se abrigar em barracas instaladas em praças e calçadas, o que ao menos lhes assegura um mínimo de privacidade e alguma proteção contra intempéries do clima, insetos e até agressões. A grande maioria dos desabrigados, porém, só pode contar com o que encontra pelo caminho, além das doações que recebe dos cidadãos mais empáticos e de instituições de amparo humanitário, sobretudo as de natureza religiosa.

A bem da verdade, a chaga dos sem-teto não é nova e representa uma das faces mais perversas da desigualdade que há séculos marca os brasileiros lançados na extrema pobreza como cidadãos de segunda classe, como se desprovidos fossem dos direitos mais comezinhos que são assegurados aos cidadãos mais abastados – ou apenas menos miseráveis. A pandemia de covid-19 e a grave crise econômica que dela derivou só ampliaram a dimensão desta tragédia de muitas causas e múltiplos desdobramentos.

Milhões de brasileiros perderam emprego e renda da noite para o dia em decorrência da queda abrupta da atividade econômica. A fim de conter a velocidade de disseminação do coronavírus e reduzir o número de mortes, não havia alternativa a governantes responsáveis a não ser impor medidas que assegurassem o distanciamento entre as pessoas. O comércio não essencial, as empresas e as escolas tiveram de ser fechados por longos períodos.

Em um primeiro momento, diante de uma crise sem precedentes, o governo federal e o Congresso fizeram o mínimo: instituíram um auxílio emergencial que permitiu que a população mais vulnerável não morresse de fome. Contudo, era preciso ter ido muito além da elementar obrigação de garantir a sobrevivência dos mais afetados pela crise sanitária e econômica.

Estivessem genuinamente preocupados com o bem-estar dos cidadãos e o futuro do País, o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso deveriam estar dedicados dia e noite a encontrar soluções para a crise e transmitir um mínimo de esperança para milhões de cidadãos em insegurança alimentar. Mas, ao que parece, o evidente crescimento da população que dorme nas ruas, sobrevive de esmolas e faz fila para comprar ossos não incomoda muita gente em Brasília.

Bolsonaro só tem olhos para a reeleição – não para fazer o bem pelos seus governados, pois é sabidamente incapaz disso, mas para manter-se no poder e, assim ele espera, retardar a responsabilização política e jurídica por sua série de malfeitos. Já seus suseranos do Centrão só estão interessados em encontrar formas de explorar o despreparo e a fraqueza do presidente a fim de dragar cada vez mais recursos do Orçamento com o único objetivo de obter ganhos pessoais, tanto para fins eleitoreiros como para enriquecimento ilícito.

É fundamental destacar que Brasília só é indiferente à tragédia que se abate sobre o Brasil além de seus muros de mármore porque grande parte da sociedade também se mostra indiferente. Nem Bolsonaro nem os parlamentares que lá estão tomaram o poder à força. A consciência de cada cidadão sobre sua parcela de responsabilidade, portanto, é crucial para pôr fim à infâmia.

A superação da tragédia social haverá de vir de um governo e de um Legislativo fiscalmente responsáveis. Não porque a responsabilidade fiscal seja um fim em si mesma, um fetiche de economistas, mas porque sem ela tudo é falácia, tudo é bravata populista. Não há milagre. O País precisa de políticas sérias para voltar a crescer de forma sustentável e criar empregos. É preciso cortar gastos alheios às necessidades mais prementes da sociedade. Não há saída além das reformas estruturais e de investimentos em saúde, educação e infraestrutura.

As eleições do ano que vem representarão a escolha entre insistir em falácias que mantêm o Brasil cronicamente aferrado ao atraso – cujo resultado é a miséria de milhões de concidadãos que vagam pelas ruas em busca de alimento e abrigo – ou pavimentar o caminho que poderá levar a um futuro mais auspicioso. É isso que está em jogo.

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