Ataque a jornalistas, ataque à democracia

Tentativa de atropelamento de jornalistas da Globonews em SP é sintoma do ódio à imprensa estimulado por liberticidas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2022 | 03h05

A intimidação de jornalistas e veículos de comunicação, nas suas formas mais variadas, atende à estratégia de grupos políticos autoritários que querem se perpetuar no poder. Por atos e palavras, direta ou indiretamente, seus líderes estimulam esse tipo de comportamento, cuja finalidade é mais do que evidente: silenciar vozes e impedir que a sociedade tenha acesso a informações e opiniões contrárias aos interesses dos poderosos de plantão.

Não raro, a violência de discursos e gestos transborda do universo simbólico da política e se materializa na forma de agressões verbais e físicas. Ou, como ocorreu no último dia 10 de maio, na capital paulista, na tentativa de atropelamento, talvez assassinato, de duas profissionais da GloboNews em pleno momento de trabalho. 

A repórter Paula Araújo e a repórter cinematográfica Patrícia Santos faziam uma transmissão ao vivo na Avenida Cupecê, na zona sul da capital paulista, quando um motorista parou seu carro ao lado delas e começou ameaçá-las e ofendê-las, criticando também a emissora. Não satisfeito, o homem jogou o veículo contra as profissionais, que estavam na calçada e conseguiram se safar ilesas. Por sorte, testemunhas chamaram a polícia, mas o criminoso conseguiu deixar o local.

Inaceitável sob qualquer ângulo, a tentativa de violência é reveladora da visão de mundo que a inspira. Tampouco pode passar despercebido que as duas profissionais atacadas eram mulheres – a misogonia parece ser um traço característico desses vândalos da democracia.

A mera presença de um jornalista por perto parece incitar a selvageria. Em maio de 2020, por exemplo, o repórter-fotográfico Dida Sampaio, do Estadão, foi atacado por enfurecidos militantes bolsonaristas em manifestação pró-governo diante do Palácio do Planalto. O que fazia Dida no momento? Apenas fotografava o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Por isso foi tratado como inimigo a ser abatido.

Em tempos de extremismos e polarizações, faz-se necessário lembrar que ataques contra a liberdade de imprensa não são novidade na cena política brasileira nem estão restritos a um campo ideológico. Jornalistas que têm como missão cobrir eventos do PT frequentemente são hostilizados, quando não agredidos. Em seu governo, o líder petista Lula da Silva defendeu o “controle social da mídia”, nome fantasia de seu projeto para manietar a imprensa. Continua adepto dessa tese, o que é motivo de preocupação para quem preza a liberdade de imprensa. Considerando que Bolsonaro, o segundo colocado nas pesquisas, pessoalmente já ameaçou “encher” um jornalista de “porrada”, motivos de preocupação não faltam.

O autoritarismo não tolera críticas nem sabe conviver com vozes dissidentes. À falta de argumentos, age para calar seus adversários, que encara como inimigos. Por isso mesmo, opõe-se à democracia. Não surpreende, então, que um de seus alvos constantes seja a imprensa, pilar das sociedades democráticas. No Brasil e em outras partes do mundo, não é de hoje, essa história se repete e deve ser permanentemente denunciada e combatida. Com a força da lei. 

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