Ataques à Petrobras em várias frentes

Bolsonaro trata a direção da estatal como sua tropa e participa de pressões para minar a boa governança que impede a eclosão de novos escândalos

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 03h00

Revivendo seus tempos de “mau militar” – como o avaliou o general Ernesto Geisel –, o presidente da República, capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, emitiu ordens de comando à diretoria da Petrobras, como se esta fosse uma tropa de recrutas a ele subordinada. “Recuem”, ordenou Bolsonaro ao então presidente da empresa, Roberto Castello Branco, logo após o anúncio de um novo aumento dos combustíveis, como apurou o Estadão/Broadcast. Não foi obedecido – nem deveria.

Obcecado pelo aumento da gasolina – que decorre das oscilações da cotação do petróleo no mercado mundial, não de maldades que atribui a dirigentes da estatal –, Bolsonaro vem tentando de todo jeito interferir na gestão da Petrobras, até mesmo, agora se sabe, dando ordens explícitas. Mudanças na composição do Conselho de Administração da empresa e nas regras de governança igualmente fazem parte da ofensiva bolsonarista. Além disso, o presidente utiliza os meios de que dispõe para se queixar do preço da gasolina, do gás de cozinha e do diesel.

Embora nomeados por Bolsonaro, os dois primeiros presidentes da Petrobras no atual governo – Castello Branco e seu sucessor, o general da reserva Joaquim Silva e Luna – conduziram a empresa de acordo com os padrões de governança que devem ser praticados por companhias com ações negociadas no mercado e com objetivos claros, definidos nos planos estratégicos aprovados por seu Conselho de Administração. Não se deixaram impressionar pelo discurso populista do presidente da República que pregava o controle do preço dos combustíveis nem aceitaram ordens vindas do Palácio do Planalto que contrariassem os objetivos estratégicos da empresa. Em razão desse comportamento correto, foram demitidos. 

Saqueada durante os governos lulopetistas para engordar cofres partidários e contas bancárias de políticos e alguns de seus funcionários, além de utilizada para conter a inflação por meio da redução do preço dos combustíveis, a Petrobras acumulou dívidas bilionárias e perdeu eficiência. Sua recuperação, a partir do governo de Michel Temer, ainda está em curso e tem como objetivo a redução da dívida e a concentração de suas atividades naquilo em que ela é mais eficiente, a exploração do petróleo.

Esse plano, conduzido por uma diretoria submetida ao escrutínio permanente dos acionistas, impede o controle artificial dos preços dos derivados, que tantos prejuízos lhe impôs no passado recente. É contra isso tudo que Bolsonaro vem sistematicamente concentrando seus ataques. O que ele quer é destruir o sistema de governança que, montado para evitar o surgimento de novos escândalos como o “petrolão”, vem assegurando os bons resultados da empresa. Foi esse sistema que até agora impediu que o Executivo tivesse êxito na sua ofensiva pelo controle das decisões da empresa – exatamente o que deixou a Petrobras à mercê da sanha lulopetista em outros tempos.

Sem entender o papel de uma empresa com ações negociadas em bolsa, Bolsonaro vem criticando duramente os resultados que a Petrobras tem alcançado. A empresa, no seu entender, deveria ter lucros “moderados”, sem especificar o que é isso. Com seu discurso populista, Bolsonaro conseguiu intimidar altos funcionários da empresa sob a gestão de Silva e Luna, um dos quais teve receio de utilizar a expressão “lucro” para descrever o excepcional resultado alcançado no ano passado, como relatou o Estadão

A empresa tem novo presidente do Conselho de Administração e novo presidente da diretoria executiva, ambos com experiência no setor. Espera-se que, como seus antecessores, resistam às pressões do governo. Não há, até agora, garantias de que isso ocorra. Bolsonaro disse que “a gente precisava de alguém mais profissional” na direção da Petrobras, para “dar uma arrumada” na empresa. “Vocês vão ver como a Petrobras vai melhorar”, disse a seus fiéis apoiadores no portão do Palácio da Alvorada. Espera-se que, como em outras declarações, ele esteja errado. A Petrobras, afinal, responde por cerca de 4% do PIB brasileiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.