Atenção à piora das contas externas

Convém pensar no setor externo para evitar mais entraves na hora da retomada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 03h00

Sem pânico, mas com prudência, convém olhar com atenção o crescente buraco nas contas externas e seus possíveis efeitos no médio prazo. Quando terminar o estado de calamidade, no fim do ano, as contas oficiais estarão em muito mau estado e a dívida pública terá aumentado. Mesmo sem novos desastres, o governo terá enorme trabalho para conduzir a retomada e ao mesmo tempo arrumar suas finanças. O desafio será mais complicado se a situação cambial for menos segura que a de hoje. Eis um excelente motivo para examinar com cuidado a piora do balanço de pagamentos. Essa piora é especialmente preocupante numa economia estagnada. Que ocorrerá quando o País crescer?

Chegou a US$ 52,87 bilhões, nos 12 meses até fevereiro, o déficit em transações correntes. Isso equivale a 2,91% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. No cálculo anterior, com base em dados até janeiro, a relação era de 2,86%. No período até outubro de 2018 estava abaixo de 2%. A relação déficit/PIB aproxima-se rapidamente de 3% e isso vale como alerta. Transações correntes incluem a balança de mercadorias, a conta de serviços e o movimento de rendas. Os números são calculados pelo Banco Central (BC).

Buracos dessa proporção, e até maiores, têm sido administrados sem grandes problemas em muitos países, mas bastam para chamar a atenção dos investidores e analistas. No caso do Brasil, ainda é preciso observar um detalhe negativo. É normal a piora das contas externas em fases de prosperidade, quando famílias com mais dinheiro consomem mais produtos importados e empresas buscam mais insumos e equipamentos estrangeiros. Além disso, mais pessoas viajam para o exterior. Não é o caso do Brasil.

A economia brasileira cresceu pouco mais que 1% em cada um dos últimos três anos e entrou em 2020 em marcha lenta. As péssimas condições do mercado de trabalho têm forçado as famílias a conter suas compras. As empresas, com grande ociosidade, vêm investindo o mínimo indispensável. Os aumentos de compras externas ocorrem sobre bases muito modestas.

Nos 12 meses até fevereiro, segundo o Ministério da Economia, o valor exportado baixou 6,4% e o importado caiu 1,7%. De acordo com a mesma fonte, no primeiro bimestre as exportações de bens foram 4,2% menores que as de um ano antes, enquanto as compras foram 6,5% maiores, puxadas por bens de capital (mais 33,7% sobre uma base baixa). Acumulou-se em dois meses um superávit de US$ 1,36 bilhão, 71,2% menor que o de um ano antes (US$ 4,73 bilhões). O valor exportado reflete as más condições internacionais e também as limitações brasileiras, com recuo de 13,8% nas vendas de manufaturados e de 12,6% nas de semimanufaturados.

Pelas contas do BC, no entanto, o valor vendido no bimestre foi 8,57% inferior ao de um ano antes. O total importado ficou 2,92% acima do registrado em janeiro-fevereiro de 2019. O saldo acumulado no ano foi quase equilibrado, com déficit de apenas US$ 45 milhões. O Ministério da Economia considera saídas e entradas de mercadorias. Os números do BC refletem os contratos de câmbio.

Pelos dois critérios a piora do comércio é a causa principal da piora das transações correntes. O buraco registrado em fevereiro, de US$ 3,90 bilhões, foi coberto com o investimento direto de US$ 6 bilhões. O déficit de US$ 52,86 bilhões acumulado em 12 meses também foi financiado com folga pelo investimento de US$ 76,66 bilhões. Mas a sobra tem diminuído. O investimento direto nos 12 meses até fevereiro foi o menor desde abril do ano passado.

Reservas de US$ 362,50 bilhões superam a dívida externa, mas o quadro geral se deteriora, com saída de dólares do mercado de títulos e pressão sobre o câmbio. Sem pânico internacional, o País chegará a dezembro sem problemas externos mais graves. Mas é preciso pensar nos investidores externos e manter as contas administráveis, para garantir um início de retomada sem maiores preocupações na área cambial. Também por isso o governo precisa definir um rumo mais claro e evitar tropeços como os dos últimos dias.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.