Avançando no nevoeiro

Retomada continua, mas desemprego e incerteza atrapalham o ritmo da atividade

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 03h00

Com expansão de 2,2%, a economia continuou a recuperar-se em agosto, mas em ritmo mais lento que nos dois meses anteriores, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Depois do desastre de março e abril, o Produto Interno Bruto (PIB), dinamizado pelo consumo das famílias, cresceu 0,7% em maio, 4,6% em junho e 2,4% em julho, de acordo com o Monitor do PIB-FGV. Comércio varejista e indústria seguem avançando mais rapidamente que o setor de serviços, o mais prejudicado pelo distanciamento social. “Certamente a incerteza quanto ao futuro da pandemia inibe uma recuperação mais robusta de todas as atividades”, comentou o responsável pelo estudo, o economista Claudio Considera.

A pandemia ainda é um importante fator de incerteza, mas outras dúvidas também alimentam, hoje, a insegurança quanto à evolução da economia. Sondagem prévia da FGV com dados obtidos até a semana passada mostrou empresários e consumidores menos confiantes do que no fim de setembro. O ministro da Economia e seus assessores deveriam dar atenção a essas informações, mas talvez estejam sem tempo para isso. Andam muito ocupados com as confusões criadas pelo Executivo e pela base aliada. Nem sequer o Orçamento de 2021 é assunto pacificado.

O Índice de Confiança Empresarial diminuiu 1,1 ponto e caiu para 96,4, derrubado pelos empresários de comércio, serviços e construção. Os dirigentes da indústria de transformação continuaram apostando na melhora. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) baixou para 79,5 pontos, com recuo de 3,9. A linha 100 delimita os territórios negativo e positivo. Só a indústria, com 112 pontos, está na área positiva.

“O nível de confiança muito baixo dos consumidores decorre em grande medida da preocupação com o mercado de trabalho, a aceleração recente dos preços dos alimentos e da incerteza com a pandemia e com o fim do período dos benefícios emergenciais”, disse a coordenadora das sondagens, Viviane Seda Bittencourt. “O descolamento entre a confiança de empresários e a dos consumidores é o maior desde 2010”, acrescentou.

Se os consumidores estão de fato preocupados com o mercado de trabalho, têm motivos muito fortes para isso. Catorze milhões de pessoas, 14,4% da força de trabalho, estavam desempregadas na quarta semana de setembro. Foi a maior taxa desde a primeira semana de maio. Com alguma oscilação, a porcentagem dos desocupados cresceu enquanto a atividade se recuperava depois da grande queda de abril. Negócios e emprego seguiram trajetórias divergentes nesse período. Embora vendas e produção tenham crescido, a porcentagem dos desocupados continuou em alta, assim como o contingente dos trabalhadores subutilizados – mais de 30 milhões, pelos últimos levantamentos.

A perda de ritmo assinalada pelo Monitor do PIB seria menos preocupante – talvez pouco preocupante – em outro cenário de emprego e de incerteza. O aumento de confiança observado em setembro já se esvaiu, em boa parte, em vários setores, segundo a FGV. Além disso, as condições do mercado de trabalho continuaram muito ruins.

Essas condições podem melhorar com as contratações de fim de ano, mas nada permite esperar recuperação continuada em 2021. O emprego normalmente diminui em cada começo de ano, mas em tempos melhores a queda é suave e a reação é rápida.

De toda forma, o Monitor mostrou o crescimento persistente em agosto, com o PIB mensal 2,2% maior que o de julho e 4,9% menor que o de um ano antes. A comparação com igual mês de 2019 foi menos negativa que em maio e junho e também esse ponto é animador. No trimestre até agosto o consumo familiar foi 6,7% menor que o de igual período do ano passado, mas também nesse tipo de comparação houve melhora.

O investimento produtivo, medido como formação bruta de capital fixo, continuou, como era previsível, muito baixo. O valor registrado no período junho-agosto foi 4,2% menor que o de um ano antes, principalmente por causa do recuo nas compras de máquinas e equipamentos. O efeito será notado no médio prazo, no potencial de crescimento.

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