Avanços e desafios da conectividade

Mais conectividade no campo e nas escolas é fundamental para o desenvolvimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 03h00

Se há muitas dúvidas sobre quais serão as mudanças legadas pela pandemia, ao menos uma é indubitável: a aceleração da digitalização das relações econômicas, sociais, políticas e culturais. Os últimos dados do IBGE sobre a conectividade revelam avanços em duas áreas capitais para o presente e o futuro do Brasil: o agronegócio e o ensino. O primeiro é a mais eficiente máquina nacional de produção de capital econômico, e, logo, a principal alavanca para a retomada do desenvolvimento. O segundo é a principal máquina de formação de capital humano, e, logo, a garantia de que esse desenvolvimento será sustentável.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, com dados de 2019, o número de domicílios que utilizavam a internet em 2018 (82,7%) aumentou 3,6 pontos porcentuais em 2019. Entre um ano e outro, o porcentual de estudantes com acesso à internet cresceu de 86,6% para 88,1%. A conectividade na área rural avançou mais do que na urbana.

Contudo, outro legado inevitável da pandemia é o aumento das desigualdades. E os dados do IBGE mostram que nesse aspecto a expansão da rede digital enfrenta grandes desafios. Apesar do progresso no campo, quase metade dos domicílios (44,4%) ainda não utiliza a internet, ante 13,3% nas cidades. As Regiões Norte e Nordeste também registraram os maiores avanços, mas ainda permanecem abaixo do porcentual das demais regiões.

Entre os 4,3 milhões de estudantes que não utilizavam o serviço em 2019, a maioria absoluta estava nas escolas públicas: 4,1 milhões de alunos não tinham acesso, ante 174 mil da rede privada. Além disso, enquanto no ensino privado 92,6% dos alunos tinham um celular disponível para acessar a internet, na rede pública eram 64,8%. No Norte e Nordeste as diferenças são mais expressivas.

Um dado relevante para a elaboração de políticas públicas é que o custo nem sempre é o maior impeditivo. Na verdade, apenas 18% dos quase 40 milhões de pessoas que não acessam a internet alegam ser o custo o fator decisivo para não ter acesso às redes. Outros 31,6% dizem não ter interesse e 43,8% alegam não saber navegar na rede. Isso sugere que, além das questões técnicas e financeiras, um dos maiores desafios para a expansão da rede digital no Brasil é a formação e a informação.

O ponto de partida para superar esse desafio é a escola. De pronto, a expansão do acesso à internet para os alunos é essencial para conter a evasão escolar, um problema já crônico antes da pandemia que se tornou agudo com ela. O investimento na conectividade escolar também é crucial para mitigar as disparidades acentuadas na pandemia entre alunos ricos e pobres. Mas esse investimento não é apenas emergencial: ele serve para introduzir alunos e professores às transformações irreversíveis da revolução industrial 4.0. Infelizmente, o presidente da República vetou integralmente o Projeto de Lei de Conectividade, que visava a assegurar conexão gratuita a alunos e professores da educação básica. O Congresso ainda pode derrubar esse veto.

Já para a agropecuária, a digitalização oferece imensas oportunidades para melhorar a competitividade, trazendo mais eficiência, produtividade e redução de custos. Mas à deficiência histórica de infraestrutura logística no campo veio se somar a falta de conectividade. Hoje só os grandes produtores conseguem investir em conexão, o que aumenta ainda mais as disparidades em relação aos pequenos. O desafio envolve políticas de estímulo às empresas de telefonia móvel no campo, a criação de linhas de crédito privadas e públicas, e parcerias público-privadas. 

Mas também nesse caso muitas soluções não são implementadas por mera falta de informação. Especialistas de órgãos como a Embrapa ou o Sebrae apontam que várias novas ferramentas a bom custo estão disponíveis, mas são subutilizadas pelos produtores rurais por falta de conhecimento. O iminente processo de implementação da tecnologia 5G deveria ser aproveitado pelo poder público não só para modernizar a infraestrutura de conexão, mas para fomentar amplos programas de informação e formação digital.

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