Baixa resistência a pressões

Bolsonaro cede a seus apoiadores nas redes sociais

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2019 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro tem dado preocupantes sinais de que pouca resistência oferece a qualquer pressão sobre seu governo, em especial as que partem de seus aguerridos apoiadores nas redes sociais e das corporações que o tinham até recentemente como representante parlamentar.

Bolsonaro, já ficou claro, é incapaz de contrariar interesses corporativos para defender com a garra necessária a reforma da Previdência que encaminhou ao Congresso – de cuja aprovação depende o futuro de seu governo. Agora, ele não hesita em desautorizar seus mais importantes ministros – o da Justiça, Sergio Moro, e o da Economia, Paulo Guedes – se isso for necessário para apaziguar os bolsonaristas mais radicais e os parlamentares que pretendem debilitar o projeto de mudanças nas aposentadorias.

No caso da reforma da Previdência, o presidente anunciou, apenas oito dias depois de ter enviado seu projeto, que está propenso a mexer em três pontos de sua proposta: baixar a idade mínima de aposentadoria de mulheres, de 62 para 60 anos, aumentar o valor do benefício assistencial pago a idosos de baixa renda e mudar as regras de pensão por morte. A disposição de Bolsonaro de fazer concessões antes mesmo do início dos debates no Congresso obviamente fragiliza o governo na mesa de negociação. Ademais, o anúncio de Bolsonaro não foi combinado com a equipe econômica, cujo chefe, o ministro Paulo Guedes, havia dito que qualquer modificação que resultasse em perda de economia deveria ser compensada de alguma forma, para alcançar a desejada poupança de R$ 1 trilhão – ou de R$ 1,6 trilhão, pelo esboço inicial – com a reforma. A intempestiva manifestação de Bolsonaro a favor de mudanças no projeto sem mencionar as contrapartidas exigidas por Paulo Guedes reduziu o valor da palavra do ministro. 

Considerando-se que parte substancial da confiança no governo Bolsonaro reside nas expectativas em torno do desempenho de seu “superministro” da Economia, o presidente deveria pelo menos acertar-se com Paulo Guedes antes de se comprometer publicamente a atenuar a reforma da Previdência. Não foi o que aconteceu. A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso, tentou conter os danos causados pela fala de Bolsonaro, ao dizer que a “espinha dorsal” do projeto é inegociável, mas acabou dando a entender que o presidente, que nunca foi favorável à reforma, não está nem um pouco confortável: “Ele é sensível aos anseios da população. Por ele, se pudesse, não fazia reforma nenhuma, mas sabe que o Brasil precisa”, declarou ela ao Valor. Ou seja, Bolsonaro dá sinais de que não está disposto a enfrentar a reação a uma reforma na qual ele mesmo parece não acreditar e que, principalmente, contraria os “anseios da população”.

Do mesmo modo, também em razão de sua incapacidade de resistir a pressões, Bolsonaro não deu respaldo a seu ministro da Justiça, Sergio Moro, quando este foi atacado por bolsonaristas nas redes sociais por ter convidado para compor o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária a cientista política Ilona Szabó – conhecida por sua militância pelo desarmamento. Sergio Moro, é bom lembrar, foi apresentado por Bolsonaro como um ministro que teria “carta branca” para atuar. No entanto, bastaram alguns tuítes furiosos para que o presidente retirasse de seu ministro essa prerrogativa, e Sergio Moro foi obrigado a reverter a nomeação diante do que chamou, em nota oficial, de “repercussão negativa de alguns segmentos”, a despeito do fato de que a convidada, como escreveu o ministro, possui “relevantes conhecimentos na área de segurança pública”. 

A provação de Moro não parou por aí. Os filhos de Bolsonaro foram às redes sociais para agredir Ilona Szabó. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, disse que a cientista política teve a “cara de pau” de aceitar o convite de Moro porque estava “com uma vontade louca de sabotar” o governo. O deputado Eduardo Bolsonaro, por sua vez, celebrou no Twitter a exoneração de Ilona Szabó: “Grande dia!”. Em outro tuíte, escreveu: “Nós somos o poder”. É o que parece.

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