Baixo investimento, baixo crescimento

Ipea confirma a fraca evolução do valor investido em capital fixo, isto é, em potencial produtivo e avanço econômico

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2022 | 03h00

Para crescer como um emergente digno dessa qualificação, o Brasil precisa aumentar seu potencial produtivo, muito limitado nos últimos dez anos. Esse potencial depende, em primeiro lugar, de investimento em máquinas, equipamentos e construções – um conjunto conhecido, no jargão dos economistas, como formação bruta de capital fixo. Em janeiro, esse investimento foi 0,4% menor que em dezembro. No trimestre novembro-janeiro, o total investido superou por 1,4% o valor aplicado nos três meses anteriores, mas ficou 1,8% abaixo daquele registrado um ano antes. Em 12 meses, houve crescimento de 15,5%, mas a realidade é menos brilhante do que esse número parece indicar. A base de comparação é o período de 12 meses a partir de fevereiro de 2020, quando a economia foi derrubada pela primeira grande onda de covid-19. Esses dados são do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia.

A construção foi o único investimento fixo com evolução firme na virada de ano. No trimestre móvel até janeiro, o valor investido em obras foi 1,6% maior que o de um ano antes, enquanto o total aplicado em máquinas e equipamentos foi 7,6% menor.

O avanço da construção reflete principalmente o vigor do setor imobiliário, numa fase de baixo investimento em infraestrutura, isto é, em redes de transporte, geração e transmissão de energia e serviços de saneamento, para citar alguns segmentos importantes. A queda do valor investido em meios de produção de origem industrial já havia sido indicada por outra fonte. Em janeiro, a produção de bens de capital foi 5,6% menor que em dezembro e 8,1% inferior à de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Um importante indicador da formação de capital fixo é a relação porcentual entre esse tipo de investimento e o Produto Interno Bruto (PIB). No começo do ano, essa relação correspondeu a 18,8%, segundo estimativa da Fundação Getulio Vargas (FGV). Superou a média registrada desde a virada do século, 18%. Mas, desde o ano 2000, a razão investimento/PIB superou 20% várias vezes. Mesmo nesses períodos, o investimento foi inferior às taxas observadas em outros emergentes, frequentemente superiores a 24%.

Baixo investimento em capital fixo indica baixo potencial de produção e de crescimento. Economistas do mercado e de instituições multilaterais conhecem esses dados e, por isso, dificilmente projetam para o Brasil, no médio e no longo prazos, taxas anuais de expansão econômica superiores a 2%. Neste ano e no próximo, o crescimento deve ser travado também pela insegurança econômica e pelos juros, mantidos muito altos pelo Banco Central, no esforço de combate à inflação acelerada. Um Brasil emperrado e com baixo potencial produtivo é parte da herança a ser deixada pelo atual governo.

Potencial de crescimento depende também do investimento em educação e formação de mão de obra, outra fraqueza brasileira, também agravada de forma indisfarçável no desastroso mandato do presidente Jair Bolsonaro.

 

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