BC leva meta de inflação a sério

Com arrocho nos juros, Copom felizmente faz sua parte contra a alta de preços, enquanto Executivo e Legislativo, que só se importam com as eleições, mantêm e ampliam baderna fiscal

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 03h00

O pior momento da inflação passou, disse com aparente otimismo o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto. Mas o tom realista predominou em seguida: falta entender o impacto de “algumas medidas desenhadas pelo governo”. A advertência é clara: ainda é preciso saber o efeito das bondades eleitorais. Aumento de gastos, corte de impostos e consequente insegurança fiscal poderão criar pressões inflacionárias. É cedo, portanto, para afrouxar a política, e há excelentes motivos, poderia ter acrescentado, para manter em 3% a meta de inflação até 2025, repetindo a de 2024.

Essa meta, segundo alguns, é irrealista e impõe, de forma ineficiente, a adoção de juros muito altos e prejudiciais ao crescimento econômico. Em 2021, a inflação chegou a 10,06%, passando longe do centro do alvo, de 3,75%, e até do limite de tolerância, de 5,25%. Algo parecido está previsto para este ano. Estima-se inflação próxima de 9%, muito acima do objetivo central, de 3,50%, e do teto, de 5%. Trabalha-se com meta de 3,25% para 2023 e de 3% para o ano seguinte. Os objetivos são fixados, com limites de tolerância acima e abaixo, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Integram o conselho o ministro da Economia, o secretário de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia e o presidente do BC.

Fatores importantes, internos e externos, continuam pressionando os preços para cima e dificultando a ação anti-inflacionária, mas isso de nenhum modo justifica uma ação mais frouxa da autoridade monetária. Ao contrário: qualquer sinal de afrouxamento, ou de tolerância aos aumentos, poderia estimular mais desarranjos e produzir efeitos desastrosos nos próximos dois anos. Seria um péssimo legado para o próximo governo e uma grave ameaça ao bem-estar dos brasileiros, principalmente dos desempregados e de milhões de pobres.

Não há sinal de leniência da autoridade monetária, apesar de algum indício de otimismo. “Acreditamos que a maior parte do processo já foi feita”, disse o presidente do BC, na segunda-feira, durante o Fórum Jurídico de Lisboa. Campos Neto, no entanto, logo lembrou a importância de completar o trabalho de “ancorar expectativas”, isto é, de instilar nos agentes econômicos a confiança no sucesso em relação às metas.

A disposição de manter uma dura política de ajuste já havia sido reafirmada na ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. Elevada para 13,25% nessa reunião, a taxa básica de juros deverá ser mais uma vez aumentada na próxima sessão do comitê. O próximo ajuste, de acordo com a ata, poderá ser inferior ou igual ao anterior, quando a variação foi de 0,5 ponto porcentual.

O presidente do BC e seus companheiros têm reafirmado a disposição de manter sua política até a inflação se aproximar da meta. Mesmo com alguma redução, os juros básicos deverão continuar muito altos pelo menos até o fim de 2023. Dinheiro caro será um entrave à expansão econômica e manterá elevado o custo da dívida pública. Mas com essa política o BC continuará empenhado na tarefa principal de frear a alta dos preços.

As declarações de Campos Neto deixam implícito um recado político muito importante: o BC está realizando seu trabalho e cumprindo sua obrigação mais importante, a mesma atribuída como objetivo primordial às autoridades monetárias em outros países. Inflação contida é sempre o alvo número um, mesmo quando um BC, como o dos Estados Unidos, tem de levar em conta, como parte de seu mandato legal, a preservação do emprego. A consideração do emprego também aparece nas deliberações do Copom, mas sem implicar desleixo em relação aos preços.

O recado implícito inclui um lembrete relativo à disciplina fiscal. Os Poderes da República, principalmente o Executivo e o Legislativo, contribuirão de forma importante para o controle da inflação se cuidarem melhor das finanças públicas, evitando bondades eleitorais, ações populistas e barbaridades como o orçamento secreto. Será inútil protestar contra terapias muito duras, se toda a responsabilidade ficar para o Banco Central.

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