Bolsonaro e o Bolsa Família

Ante a vertiginosa queda de popularidade verificada em pesquisas recentes, o presidente começa a ceder à mesma tentação populista que marcou a era lulopetista

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2019 | 03h00

Tal como foi implementado pelos governos lulopetistas, o Bolsa Família nunca passou de um programa destinado apenas a seduzir o eleitorado pobre, pois não vinha acompanhado das medidas necessárias para proporcionar perspectivas de melhoria real de vida para essa parcela sofrida da população. Ao contrário: criou dependência crônica do benefício, e cidades inteiras, especialmente no Nordeste, passaram a ter suas economias atreladas ao pagamento do Bolsa Família. 

Logo ficou claro o peso decisivo desse programa nos resultados eleitorais do PT, que podia contar com o voto de legiões de pobres extremamente gratos pelas migalhas assistencialistas assim oferecidas. Até hoje, a despeito dos desastres econômicos causados por essa aventura, com efeitos especialmente danosos no Nordeste, o presidiário Lula da Silva reina soberano entre os nordestinos, que votaram em peso no seu preposto, Fernando Haddad, na eleição presidencial.

Provavelmente foi pensando nesse eleitorado, que lhe deu apenas 30% dos votos nordestinos no segundo turno da eleição presidencial, contra 70% para a marionete de Lula, que o presidente Jair Bolsonaro resolveu instituir um “13.º salário” para o Bolsa Família.

Ante a pobreza renitente de grande parte do País, é indiscutível a necessidade de um programa de transferência de renda que, combinado com medidas como oferta de cursos profissionalizantes para os pais e de uma educação de qualidade para os filhos das famílias beneficiadas, pudesse mitigar a profunda dependência dessa população em relação à caridade e à solidariedade, privada ou estatal. Não é o caso do Bolsa Família petista, cujo fracasso se traduziu pelo aumento constante no número de beneficiados – só havia porta de entrada, e não de saída, o que acrescentou mais e mais eleitores ao curral lulopetista.

Esse tipo de engodo foi um dos motivos pelos quais parte significativa dos eleitores, fora do Nordeste, votou contra o PT na última eleição, propiciando a vitória de Bolsonaro, que incorporou como ninguém o discurso antipetista.

Quando deputado federal, Jair Bolsonaro fez diversos pronunciamentos atacando o Bolsa Família – e pelas razões certas. Em 2010, no final do governo de Lula da Silva, o então parlamentar Bolsonaro disse na Câmara: “Se hoje em dia eu der R$ 10 para alguém e for acusado de que esses R$ 10 serviram para compra de voto, eu serei cassado. Agora, o governo federal dá para 12 milhões de famílias em torno de R$ 500 por mês, a título de Bolsa Família definitivo, e sai na frente com 30 milhões de votos. Realmente, disputar eleições num cenário desses é desanimador. É compra de votos mesmo. Que bom seria se o eleitor tivesse o mínimo de discernimento”. No ano seguinte, já sob o governo de Dilma Rousseff, o deputado Bolsonaro voltou ao tema na Câmara: “O Bolsa Família nada mais é do que um projeto para tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda, para que use seu título de eleitor e mantenha quem está no poder”.

Na cadeira de presidente, porém, Bolsonaro parece ter mudado de ideia. Ante a vertiginosa queda de popularidade verificada em pesquisas recentes, o presidente começa a ceder à mesma tentação populista que marcou a era lulopetista.

Em defesa própria, Bolsonaro pode dizer que o tal “13.º salário” do Bolsa Família foi uma promessa de campanha, mas isso não ajuda a tornar a medida justificável. Pelo contrário: demonstra sem dúvida seu caráter eleitoreiro, pois a promessa foi feita exclusivamente para rebater a acusação petista de que, uma vez eleito, Bolsonaro acabaria com o Bolsa Família.

Esse é um dos compromissos de campanha que Bolsonaro poderia abandonar, sem prejudicar sua imagem. Seria demonstração de coerência com seu discurso segundo o qual o Bolsa Família, no formato posto em prática pelos petistas, cria dependência e compra votos. Mas, diante da ausência de boas notícias para os mais pobres – principais vítimas do desemprego e do repique da inflação dos alimentos –, Bolsonaro demonstra perigosa inclinação para a demagogia.

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