Bolsonaro e o meio ambiente

Que o presidente trate do tema com seriedade, em favor dos interesses nacionais

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2019 | 03h00

Apenas poucos dias após a conclusão das negociações havidas nos últimos 20 anos para a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye, afirmou que seu país “não está pronto” para ratificá-lo. “Não posso dizer que hoje vamos ratificar (o acordo com) o Mercosul. A França, no momento, não está pronta. Vamos observar com atenção e, com base nestes detalhes, vamos decidir”, disse Ndiaye em entrevista ao canal de notícias BFM.

A declaração do Palácio do Eliseu, que aparentemente contrasta com a postura simpática ao acordo manifestada pelo presidente Emmanuel Macron durante a cúpula do G-20, não surpreende quem acompanhou o desenrolar das últimas rodadas de negociação. A França foi um dos países mais relutantes ao tratado de livre comércio com o Mercosul. O governo francês sempre temeu as reações do influente setor agropecuário daquele país à entrada dos produtos sul-americanos na Europa, em especial dos produtos brasileiros. Os agricultores franceses são bastante dependentes de subsídios.

Os “detalhes” a serem observados antes da ratificação do acordo com o Mercosul pelo parlamento francês, aos quais Sibeth Ndiaye fez menção, estão relacionados com a adoção de medidas de proteção do meio ambiente, primordialmente pelo Brasil. O governo da França – mas não apenas ele na União Europeia – usa e abusa de uma conveniente mistura entre genuína preocupação universal com a preservação ambiental e interesses políticos e econômicos bastante localizados. Não poucas vezes a cartada da proteção do meio ambiente foi lançada como um subterfúgio para a defesa de medidas protecionistas.

Decerto o endurecimento da posição da França e essa névoa de incerteza que a porta-voz do presidente Macron lançou sobre o futuro do acordo com os sul-americanos soam como um dos Noturnos de Chopin aos ouvidos de seu público interno. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, com propriedade, notou que “nada do que está no acordo é surpresa para os Estados-membros da União Europeia”, indicando que, de fato, o governo francês fala aos seus. Ademais, nenhum país signatário está “pronto” para ratificar o mais ambicioso acordo de livre comércio já negociado. Seus termos ainda devem passar por debates mais ou menos ruidosos em cada um dos Parlamentos antes de começar a produzir os efeitos benfazejos que dele se espera.

Se, por um lado, é sabido que o governo francês lança mão da agenda de proteção do meio ambiente para, em alguns casos, escamotear medidas protecionistas, por outro, o governo de Jair Bolsonaro tem sido pródigo em lhe oferecer munição de grosso calibre. O presidente brasileiro pode ter as crenças que quiser em relação ao meio ambiente. Certamente as tem. Na cúpula do G-20, na semana passada, Bolsonaro chegou a falar em uma tal “psicose ambientalista” para ilustrar o que, em sua visão, seria um excesso de preocupação com as questões relativas ao clima e à proteção ambiental. Mas passa da hora de Jair Bolsonaro tratar dessas questões como o chefe de Estado e de governo que é, tendo em primeira conta o interesse nacional, não as suas opiniões particulares.

Em seis meses de governo, o presidente Bolsonaro ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris, mexeu com a complexa questão da demarcação das terras indígenas e desqualificou estudos científicos sobre mudanças climáticas, atribuindo-as a um “conluio globalista”, seja lá o que isso signifique. No cerne da visão que Bolsonaro tem do meio ambiente e da adoção de medidas para sua proteção está o profundo receio do presidente de que esteja em andamento um processo de violação da soberania nacional por agentes estrangeiros.

É louvável que o presidente esteja tão preocupado com a defesa dos interesses do País. Se é um sentimento genuíno, e nada sugere que não seja, que Jair Bolsonaro trate do meio ambiente com mais seriedade, não por convicção pessoal, mas em favor dos interesses nacionais.

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