Bolsonaro e o Nordeste

Ao que parece, a Região continuará a ser tratada como curral eleitoral de demagogos

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 20h59

O presidente Jair Bolsonaro já se referiu aos nordestinos como “paraíbas”, termo pejorativo que não fica bem na boca de gente civilizada, muito menos na de quem é responsável por governá-los. Também já se referiu aos programas de transferência de renda, responsáveis por sustentar parte considerável da economia nordestina há um bom tempo, como “compra de votos”, um meio de “tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda”.

Mas isso são águas passadas. Hoje, Bolsonaro tem como principal capital político o crescimento de sua popularidade no Nordeste, impulsionado, sobretudo, pelo auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais que perderam renda em razão da pandemia de covid-19. “Bolsonaro está tendo um crescimento vertiginoso no Nordeste”, avaliou, em entrevista ao Estado, o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI), um dos principais sustentáculos do presidente no chamado Centrão.

O parlamentar piauiense é voz experiente quando se trata de analisar a direção dos ventos. Esteve na base de apoio dos governos de Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Já se referiu a Lula da Silva como “o melhor presidente da história do Brasil, principalmente para o Nordeste”, enquanto qualificava Bolsonaro como um “fascista” que “não tem capacidade de governar”. Agora, anuncia antecipadamente que “o Progressistas do Piauí está completamente fechado no apoio a ele (Bolsonaro) para 2022”, referindo-se às eleições presidenciais, e avalia que “o presidente está muito bem, em seu melhor momento”.

Nada disso é por acaso. Em meio à catástrofe social e econômica causada pela pandemia e a crescentes suspeitas que pairam sobre sua família a respeito de negócios estranhos envolvendo rachadinhas e milicianos, Bolsonaro parece ter decidido investir no clientelismo explícito no Nordeste, fórmula testada e aprovada por Lula da Silva em busca de apoio popular.

“O Nordeste não é de esquerda, não é petista”, disse o senador Ciro Nogueira. “O Nordeste foi lulista. Lula transmitiu na época ter uma preocupação de cuidar das pessoas. O presidente Bolsonaro agora teve a mesma atitude, neste momento de dificuldade, passou essa imagem lá e ocupou um espaço de um vazio enorme”, explicou didaticamente o parlamentar.

Ou seja, um dos líderes políticos mais influentes do Nordeste informa que a região que antes se encantava com Lula hoje abraça Bolsonaro porque este demonstrou “preocupação” com sua população, traduzida na forma de um auxílio emergencial e de um par de visitas para inaugurar obras.

Tudo isso diz muito menos sobre as artimanhas eleitoreiras dos oportunistas de sempre e muito mais sobre a tragédia de uma região que há décadas é estruturalmente dependente do Estado. Mesmo no melhor momento do Nordeste nos últimos anos, entre 2006 e 2014, quando o PIB regional cresceu na média 3,9% ao ano, ante a média nacional de 3,5%, o impulso fundamental foi basicamente dado por programas sociais e ampliação do crédito nos governos petistas.

Quando veio a imensa crise econômica que ajudaria a apear o PT do poder, o Nordeste foi a região mais afetada, justamente porque o governo federal pouco havia feito para ajudar a região a se desenvolver de fato e, assim, tornar permanentes as conquistas daquela época. Entre 2015 e 2016, o PIB médio nordestino recuou 4,3% ao ano, ante queda de 3,6% no País. Já a renda familiar no Nordeste caiu 2%, quase o dobro da queda nacional.

Hoje, o Nordeste, que tem 27% da população do País, recebe 35% de todo o auxílio emergencial do governo federal. O auxílio chega a nada menos que um terço de todos os nordestinos. Considerando-se que no ano passado metade da população do Nordeste sobreviveu com cerca de R$ 260 mensais e os 10% mais pobres recebiam menos de R$ 60, é possível mensurar o impacto – social, econômico e eleitoral – do auxílio de R$ 600.

Infelizmente, ao que parece, o Nordeste continuará a ser tratado como curral eleitoral de demagogos que demonstram “preocupação” com seu povo sofrido, mas nada fazem de fato para mudar sua triste realidade.

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