Bolsonaro e o teste do PIB

O Brasil sairá do buraco e o governo terá motivo para festejar se a economia crescer pelo menos 2% neste ano

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

05 de março de 2019 | 03h00

O Brasil sairá do buraco e o governo terá motivo para festejar se a economia crescer pelo menos 2% neste ano. Com isso o País poderá retomar pela primeira vez em cinco anos, até com pequena folga, o nível de atividade anterior à recessão. A meta pode parecer pouco ambiciosa, mas, para atingi-la, o presidente Jair Bolsonaro precisará conseguir a aprovação da reforma da Previdência e mostrar um claro empenho em promover o ajuste das contas públicas. Melhor, ainda, se já cuidar de outras mudanças necessárias a uma longa prosperidade. Se houver um firme avanço no rumo das inovações, será possível esperar taxas anuais de expansão iguais e até superiores a 3%.

As condições políticas para a dinamização da economia são muito melhores do que na maior parte da gestão do presidente Michel Temer. Falta ver se o governo saberá entender-se com parlamentares e governadores para aproveitar o ambiente favorável. Falta percorrer um trecho até o patamar de produção de 2014. Na pior fase da crise, em 2015 e 2016, o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 6,7%. Desde o início da recuperação, em 2017, o crescimento ficou em apenas 2,2% – ou pouco mais, pelo efeito da acumulação.

A expansão de 1,1% em 2018, igual à do ano anterior, ficou muito abaixo das projeções do início do ano, superiores a 2,5%. As estimativas foram gradualmente reduzidas e o resultado efetivo chegou sem surpresa, quando os números do quarto trimestre e de todo o ano de 2018 foram divulgados pelo IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Qualquer otimismo já se havia dissipado e, além disso, o Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas (FGV) havia antecipado o balanço oficial.

O melhor desempenho da economia foi o dos primeiros três meses, quando o PIB foi 0,4% maior que o do trimestre anterior. O crescimento no período de abril a junho foi nulo, principalmente por causa da crise do transporte rodoviário no final de maio. A expansão de 0,5% na etapa de julho a setembro é explicável em boa parte como reação dos negócios prejudicados pela paralisação dos transportadores. Nos meses finais o aumento foi quase nulo, de apenas 0,1%.

Mesmo depois da eleição, os efeitos da incerteza política e da insegurança quanto às condições econômicas de 2019 ainda frearam as decisões de investimento e limitaram severamente a formação de estoques e a contratação de pessoal. Aí, sim, pode ter havido alguma surpresa para os analistas, mas por pouco tempo.

A insegurança, mesmo depois de confirmada a vitória do candidato Jair Bolsonaro, refletiu-se com clareza na evolução do emprego. No trimestre de novembro a janeiro o desemprego subiu para 12%, atingindo um patamar bem superior ao do período de agosto a outubro, quando havia ficado em 11,7%. Geralmente há uma piora na passagem de um ano para outro, mas desta vez a deterioração foi mais grave, como indicaram os dados do IBGE.

Apesar do resultado decepcionante, o balanço de 2018 contém dados animadores. O PIB por habitante cresceu 0,3%, repetindo o aumento observado em 2017 depois de três anos de redução. Os três grandes setores tiveram resultado positivo, com taxas de crescimento de 0,1% para a agropecuária, 0,6% para a indústria e 1,3% para os serviços. Merece destaque o avanço de 1,3% da indústria de transformação, por seus efeitos de irradiação sobre outros segmentos.

O investimento em máquinas, equipamentos e construções, medido como formação bruta de capital fixo, foi 4,1% maior que o de 2017 e equivaleu a 15,8% do PIB. A proporção foi maior que a do ano anterior, de 15%, mas continuou muito abaixo da necessária para sustentar um crescimento na faixa de uns 4% ao ano.

A meta de investir 24% do PIB vem sendo buscada sem sucesso há muitos anos. Para alcançá-la o governo deverá ser muito mais eficiente, produzir bons projetos, mobilizar capitais privados para a infraestrutura e criar condições para o investimento empresarial. Então o Brasil estará no primeiro pelotão dos emergentes.

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