Bolsonaro em casa

Com a anunciada ida ao PL, Jair Bolsonaro vai oficialmente para onde sempre esteve. Sempre foi Centrão, sempre foi baixo clero, sempre foi parte da política miúda

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 03h00

Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República prometendo uma nova política. Chegou a dizer que apoiaria uma reforma política que acabasse com a reeleição. Não fez nada disso. Agora, dá mais um passo no abandono do figurino de 2018, assumindo sua verdadeira identidade política. Segundo o anúncio oficial, Jair Bolsonaro vai se filiar no dia 22 de novembro ao PL, o partido de Valdemar Costa Neto.

A escolha do PL, se confirmada, é muito significativa. Revela, em primeiro lugar, a incapacidade do bolsonarismo de criar uma legenda. Em novembro de 2019, Jair Bolsonaro desfiliou-se do PSL, anunciando a intenção de criar uma tal Aliança pelo Brasil. No entanto, a nova legenda não saiu do papel. O presidente e seus apoiadores simplesmente não conseguiram realizar uma tarefa que, mesmo não sendo fácil, está longe de ser impossível. Marina Silva, por exemplo, conseguiu o registro da sua legenda na Justiça Eleitoral. Jair Bolsonaro nem isso fez. O fracasso da Aliança pelo Brasil diz muito sobre a disfuncionalidade do bolsonarismo para construir o que quer que seja.

Incapaz de criar uma legenda para chamar de sua, Jair Bolsonaro precisava escolher um partido. A filiação partidária é requisito constitucional para concorrer a cargo político. Foi acintosa, no entanto, a escolha da legenda. Havendo tantos partidos no País – até muito mais do que seria razoável –, Jair Bolsonaro escolheu justamente o partido de Valdemar Costa Neto, uma das figuras centrais do mensalão. Ou seja, aquele que, nas eleições presidenciais de 2018, dizia ser o candidato mais antipetista não tem agora a menor inibição de pedir abrigo partidário a quem participou ativamente de um dos maiores escândalos do PT.

Há muitas incoerências nessa história, mas é preciso reconhecer uma coisa. A filiação de Jair Bolsonaro ao PL está perfeitamente alinhada com sua trajetória política. O slogan da campanha de 2018 – “meu partido é o Brasil” – nunca correspondeu aos fatos. Jair Bolsonaro é um dos políticos que mais se beneficiaram do atual sistema partidário, altamente fragmentado, com legendas sem identidade e sem programa político, estruturadas a partir do interesse de seus caciques. Em 1990, Jair Bolsonaro foi eleito deputado federal pelo PDC. Depois, passou pelo PPR (1993-1995), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016), PSC (2016-2017) e PSL (2018-2019).

Questionado sobre sua filiação ao partido de Valdemar Costa Neto, Jair Bolsonaro retrucou com sua lógica peculiar. “Vou conversar com PSOL e PCdoB?”, questionou em entrevista ao Jornal Cidade Online. Aos críticos de sua nova escolha partidária, Jair Bolsonaro poderia simplesmente ter mencionado sua história. Quem esteve por mais de uma década no PP de Paulo Maluf – foi o partido no qual Jair Bolsonaro ficou por mais tempo – não tem motivos para nutrir inquietações de consciência em razão de uma filiação ao PL de Valdemar Costa Neto.

Com a anunciada ida ao PL, Jair Bolsonaro vai oficialmente para onde sempre esteve. Sempre foi Centrão, sempre foi baixo clero, sempre foi parte da política miúda. Poucas cenas representam tão fielmente a real estatura política de Jair Bolsonaro como sua entrada na Câmara dos Deputados, para a sessão solene de posse no dia 1.º de janeiro de 2019, cumprimentando sua turma no Congresso. Não havia compostura presidencial. Tudo remetia à ideia de camarilha.

Ao aceitar o presidente da República em seus quadros, o PL revela também como o Centrão se sente confortável com o governo de Jair Bolsonaro. Suas chances de reeleição não são animadoras, mas isso não é problema para legendas como o PL – hábeis não apenas em aderir ao vencedor das eleições, mas em pular do barco antes do naufrágio. Aqui, a razão é outra. Com sua inesgotável capacidade de criar atritos e problemas, aliada à falta de rumo, Jair Bolsonaro oferece ao Centrão o cenário dos sonhos: um governo fraco, com o qual se pode barganhar ininterruptamente, com ganhos cada vez mais altos. Por que não irão aproveitar o folguedo até o último momento?

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