Bolsonaro escancara os defeitos dos partidos

Nas negociações para a filiação partidária do presidente, chama a atenção a naturalidade com que se aceita a ausência de discussão sobre ideias e propostas políticas

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 03h00

O País tem assistido às negociações de Jair Bolsonaro para se filiar a um partido político. Houve conversas com diversas siglas. Em outubro, a escolha parecia próxima. “Hoje em dia está mais para PP ou PL”, disse Bolsonaro no dia 27 de outubro. Semanas depois, anunciou-se a filiação ao PL de Valdemar Costa Neto, com data marcada para o dia 22 de novembro. No entanto, o processo foi suspenso em razão de desentendimentos mútuos.

Nessa história, chama a atenção a naturalidade com que se aceita a completa ausência de qualquer conteúdo programático nas negociações entre Jair Bolsonaro e os partidos. Não há menção a alguma visão política, a algum diagnóstico sobre os problemas nacionais ou a alguma proposta para o País. É o descaramento absoluto: o completo abandono de qualquer relação entre política e ideia, entre partido e um mínimo conjunto de propostas.

Deve-se advertir que, com Jair Bolsonaro, tudo se torna mais desqualificado e debochado. Ou seja, seria injusto extrair um diagnóstico dos partidos brasileiros apenas pela observação das relações de Bolsonaro com as legendas. Por exemplo, ainda que a fidelidade partidária não seja um valor especialmente cultivado no Congresso, poucas pessoas converteram sua trajetória política em um contínuo “zapear” (ato de mudar rápida e consecutivamente os canais de televisão, sem se deter em nenhum) de siglas como fez Jair Bolsonaro. Eleito em 1990 deputado federal pelo PDC, passou pelo PPR (1993-1995), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016), PSC (2016-2017) e PSL (2018-2019).

Felizmente, não é toda a política brasileira que cultiva o padrão Bolsonaro. De toda forma, deve-se reconhecer que Jair Bolsonaro é uma espécie de grande caricatura da política nacional, desvelando seus piores defeitos. Muito se pode entender a partir das negociações envolvendo a filiação partidária do presidente Bolsonaro.

Em razão da completa ausência de consistência programática, os partidos enfrentam problemas bastante peculiares. Por exemplo, enquanto os caciques de uma legenda negociam com Jair Bolsonaro sua possível filiação, parlamentares dessa mesma sigla postulam alinhamento em 2022 com Luiz Inácio Lula da Silva, que em tese seria o arquirrival do presidente da República. Ou seja, uma mesma sigla, que supostamente reúne pessoas com ideias políticas semelhantes, tem apoiadores tanto de Lula como de Bolsonaro.

Ainda que não cause hoje em dia especial escândalo, a falta de identidade ideológica dos partidos deveria ser motivo de profundo lamento. Tem-se um sistema disfuncional. Entidades privadas, regidas por regras especialmente benevolentes e que recebem vultosas verbas públicas, não cumprem suas funções mínimas de mediação e representação política. São meros agrupamentos de pessoas, reunidas sob a exclusiva motivação de maximizar os interesses particulares de cada um. Não é isso, afinal, o que Jair Bolsonaro e as legendas em negociação com ele manifestam todos os dias?

Para piorar, os partidos não padecem apenas da falta de consistência ideológica, reunindo sob a mesma sigla pessoas com ideais políticos diferentes. Não é apenas que, seja qual for a legenda a qual Jair Bolsonaro se filiará, se sabe desde já que nela haverá parlamentares inclinados, por exemplo, a apoiar Luiz Inácio Lula da Silva. Também já se sabe de antemão que os próprios caciques das legendas em negociação com Jair Bolsonaro não terão nenhum pudor em depois apoiar Lula – ou quem quer que seja –, a depender das circunstâncias políticas.

Não são apenas os partidos. Políticos brasileiros também têm profundas inconsistências ideológicas. Perante isso, seria até natural recorrer ao bordão de Jair Bolsonaro, o infame “e daí?”. Mas também é possível outra atitude, mais responsável. Segundo a Constituição, a filiação partidária é requisito para concorrer a cargo político. Pode ser um bom requisito para a definição do voto: só votar em candidato que tenha de fato um partido, com identidade, programa e proposta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.