Bolsonaro faltou na hora errada

Talvez o presidente tenha preferido ficar longe de um debate que seu governo rejeita

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2020 | 03h00

Incorrigível, o presidente Donald Trump voltou a agir sem consultar e – pior que isso – sem avisar seu fiel seguidor Jair Bolsonaro. O presidente da maior potência econômica e militar do mundo apareceu de novo em Davos, celebrou o 50.º aniversário do Fórum Econômico Mundial, fez um comício na sessão de abertura e declarou apoio à campanha de plantio de um trilhão de árvores em dez anos. Criticou, como de costume, as previsões de desastre climático, mas declarou-se comprometido com a conservação da natureza e, mais importante, aderiu à campanha recém-lançada pelo fundador do Fórum, Klaus Schwab. Com Trump chegou seu secretário do Tesouro, Steven Mnuchin. Do primeiro escalão do governo brasileiro só compareceu o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O ministro brasileiro só fez um breve e pouco explicado comentário sobre a questão ambiental. Associou o desflorestamento à pobreza. Queixou-se, depois, de ter sido mal interpretado. Ainda assim, sua observação foi citada pela apresentadora logo na abertura de uma sessão especial sobre a Amazônia. A mera programação desse debate já deixaria o governo brasileiro em posição desconfortável. A isso se acrescentaram a referência às palavras de Guedes e a menção ao enorme número de incêndios em 2019.

A decisão de Bolsonaro de ficar longe de Davos foi vagamente justificada por questões de segurança. Mas também se pode pensar em outra hipótese. Questões ambientais foram discutidas em grande número de sessões neste ano. Talvez o presidente brasileiro tenha preferido ficar longe de um debate rejeitado por seu governo.

Se esse tiver sido o caso, o lance foi mal calculado. O mais poderoso adversário da tese do aquecimento global decidiu aparecer. Donald Trump aproveitou a ocasião para fazer campanha eleitoral, para dar um ar de normalidade a seus compromissos, para fazer um gesto simpático ao Fórum e, enfim, para marcar presença num evento internacional de prestígio. A declaração de apoio à campanha de plantio de um trilhão de árvores foi a cereja no bolo.

A ocasião foi também explorada com muita competência pelo presidente da Colômbia, Iván Duque. Além de se engajar publicamente na campanha do Fórum, o presidente colombiano participou do painel sobre a Amazônia, lembrou que grande parte de seu país está em território amazônico. E não perdeu oportunidade para propagar o programa de seu governo, já em execução, de plantar 180 milhões de árvores até 2022.

Se uma boa participação no Fórum pode proporcionar prestígio e ganhos políticos, o presidente colombiano deve ter excelentes motivos de satisfação. Convidado para discursar numa sessão introduzida às pressas no programa, o oposicionista venezuelano Juan Guaidó dirigiu-se a Duque duas vezes para agradecer a ajuda proporcionada a milhares de pessoas fugitivas da Venezuela. A respeito do Brasil, nenhuma palavra na sessão especial.

O presidente brasileiro encontraria excelentes motivos para viajar a Davos, se pensasse um pouco mais no assunto.

Talvez ele dê pouco valor a governantes de grandes democracias da Europa, como a alemã Angela Merkel. Mas poderia aproveitar a presença da presidente da Comissão Europeia e do presidente do Parlamento Europeu. Afinal, ainda falta sacramentar legalmente o acordo entre Mercosul e União Europeia. Poderia encontrar, além disso, o novo primeiro-ministro da Espanha. O governo espanhol tem sido com frequência uma boa ponte entre a América Latina e a Europa. A lista de motivos seria extensa, mas, para percebê-la, talvez o presidente precisasse de um competente apoio nas áreas diplomática, econômica e política.

Representantes de alto nível do governo chinês também apareceram. O governo da China, a segunda maior economia do mundo, nunca deixa de bater o ponto na reunião do Fórum. Celebrar o meio século do Fórum já poderia ser motivo suficiente. Mas Bolsonaro faltou.

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