Bolsonaro, o birrento

Ao cancelar reunião com o presidente de Portugal de modo grosseiro, Bolsonaro confirma que não pensa no País, só em si

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2022 | 03h00

O presidente Jair Bolsonaro mostrou, mais uma vez, que não tem estatura para ser um chefe de Estado ao ordenar que o Ministério das Relações Exteriores cancelasse de última hora o encontro que teria em Brasília com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, na segunda-feira passada. O motivo não poderia ser mais mesquinho: tratou-se de uma espécie de “retaliação” de Bolsonaro ao presidente português pelo fato de este ter se reunido com o ex-presidente Lula da Silva na véspera.

Ora, de crianças é esperado que façam birra quando contrariadas. De adultos, não. Menos ainda de um presidente da República, que deveria ser alguém capaz de separar muito bem as suas emoções e interesses pessoais dos interesses do Estado e da sociedade.

A bem da verdade, a grosseria não pode nem sequer ser classificada como um incidente diplomático. É apenas uma grosseria mesmo. A rigor, não houve incidente algum. Afinal, todos sabem quem é Bolsonaro, todos conhecem seus maus modos e a estreiteza de seus horizontes, inclusive no outro lado do Atlântico.

“Quem convida para almoçar é quem decide se quer almoçar ou não”, respondeu Marcelo Rebelo ao ser questionado sobre o cancelamento. “Se o presidente da República Federativa do Brasil entende que não pode, não quer ou não é oportuno (almoçar comigo), não entra na sua programação. Eu respeito quem deixa de convidar pelas razões que queira”, disse o presidente português, que seguiu sua agenda no Brasil mantendo encontros com os também ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer e prestigiando a Bienal do Livro em São Paulo, que neste ano homenageia escritores portugueses.

Se os laços entre as duas nações irmãs não haveriam de ser enfraquecidos pela pequenez política e diplomática de Bolsonaro, não deixa de ser escandaloso o absoluto descaso do presidente da República pelos interesses dos cerca de 210 mil brasileiros que vivem em Portugal e pela manutenção de relações, se não amistosas, ao menos civilizadas com o chefe de Estado de um país cuja relevância é enorme para o Brasil, por razões óbvias demais para serem descritas.

Não que ainda houvesse dúvidas, mas o episódio de descortesia com sua contraparte portuguesa é mais um a revelar que Bolsonaro não se importa com os interesses do Brasil e dos brasileiros, tanto os que vivem aqui como os que vivem em Portugal. No raio de alcance de sua visão só estão seus interesses pessoais e familiares. Todas as suas ações e omissões como chefe de Estado e chefe de governo têm sido orientadas não pelo interesse público, mas por seus objetivos particulares, sobretudo seu interesse eleitoral. Nesse sentido, para Bolsonaro, qualquer pessoa que se encontre com seu principal adversário até o momento, não importa o motivo, só pode estar conspirando contra ele.

Mas Bolsonaro passará. Muito mais do que entre os dois chefes de Estado, as relações entre Brasil e Portugal serão para sempre relações entre dois povos amigos, fortemente atados por laços históricos, culturais, econômicos e afetivos.

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