Bolsonaro, presidente de tudo

Saída do presidente do BB completa mais uma desastrosa intervenção bolsonariana

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 03h00

Com a saída do presidente do Banco do Brasil (BB), André Brandão, o País contabiliza mais uma grave perda causada pela desastrosa interferência de Jair Bolsonaro. Ao formalizar sua renúncia, Brandão apenas se antecipou à demissão já decidida no Palácio do Planalto. Esse novo desmando comprova mais uma vez a condição singular do atual inquilino do Alvorada. Alguns chefes de governo são autoritários. Outros são incompetentes. Em Bolsonaro combinam-se as duas qualificações, harmonizadas em sua centralização de múltiplos papéis – chefão da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Eletrobrás, do Tesouro Nacional, do Ministério da Saúde e de quantos órgãos públicos possam atrair seus interesses eleitorais e familiares. Presidir é mandar, segundo o presidente, e isso significa mandar em tudo.

André Brandão tentou administrar o BB de forma profissional e segundo critérios combinados com o ministro da Economia, responsável por sua indicação. Aumentar a eficiência, conter custos e elevar a lucratividade foram seus objetivos quando resolveu reduzir o número de agências, modernizar processos e iniciar um programa de demissões. Seriam ações compatíveis com sua conhecida e respeitada experiência no setor bancário. Além disso, seriam adequadas a uma instituição de capital aberto, com muitos acionistas privados. Mas a preocupação eleitoral prevaleceu.

O presidente da República reagiu mal. Em certas cidades haveria oposição política ao fechamento de agências, e, além disso, as demissões seriam inoportunas. Falou-se, na época, na exoneração do presidente do BB, mas o ministro da Economia conseguiu amainar o conflito. Além disso, André Brandão era apoiado também pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, figura ainda levada em conta no Palácio do Planalto. Mas o ato final foi apenas adiado.

A saída de mais um presidente do BB foi absorvida sem surpresa no mercado. Já se esperava sua demissão desde o afastamento do presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, outro profissional nomeado por indicação de Paulo Guedes. Também nesse caso o presidente da República agiu em ostensiva defesa de seus interesses eleitorais. O aumento dos combustíveis, especialmente do diesel, desagradou a caminhoneiros, aliados de Bolsonaro, e o assunto ganhou prioridade estratégica no Palácio do Planalto.

O aumento de preços dos combustíveis abriu as comportas para uma enxurrada de asnices sobre reajustes e tributação. Se fosse apenas ignorante, o presidente talvez fosse menos nocivo. Mas ele se julga capaz de dar palpites e ordens sobre quase tudo, ou mesmo sobre tudo, quando seus interesses são afetados. No caso da Petrobrás, a ameaça final foi pronunciada quando Castello Branco se mostrou pouco disposto a cuidar de interesses parciais, isto é, de caminhoneiros. A demissão foi o capítulo seguinte.

Limitações de competência e critérios administrativos nunca foram decisivos para Bolsonaro. Sua primeira intervenção no BB foi relacionada a uma campanha publicitária. Inclusão era o tema central do anúncio, condenado pelo presidente como incompatível com os valores familiares. O presidente do BB aceitou a crítica e suspendeu a campanha. Mas a intromissão foi incompatível com a gestão de uma empresa como o BB, como advertiu o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz: “Não cabe à administração direta intervir na publicidade estritamente mercadológica das empresas estatais”.

Santos Cruz logo cairia. O presidente do BB, Rubem Novaes, saiu mais tarde. Era favorável à privatização do banco, rejeitada por Bolsonaro. Também nesse caso Paulo Guedes perdeu.

Um manda, outro obedece, disse o general Eduardo Pazuello, o mais disciplinado, em termos bolsonarianos, ministro da Saúde. Falta calcular quantas mortes teriam sido evitadas, se o governo federal tivesse agido, na pandemia, sem negacionismo e com respeito à vida. Mas Bolsonaro acertou em um detalhe: Pazuello, seu ministro ideal, era o modelo perfeito para Petrobrás, BB e todos os demais órgãos federais.

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