Bolsonaro, risco para o agro

Ação do presidente ameaça o agronegócio, fator de segurança contra crise cambial.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2020 | 03h00

Com US$ 85,84 bilhões de vendas externas e superávit de US$ 75,46 bilhões, o agronegócio manteve no azul o comércio exterior brasileiro. Suas transações mais que compensaram o déficit de outros setores e garantiram o saldo comercial de US$ 47,66 bilhões no período de janeiro a outubro. Liderada pela China, a Ásia foi o principal destino das exportações brasileiras de origem agropecuária, tendo absorvido mercadorias no valor de US$ 46,28 bilhões. Com importações de US$ 13,86 bilhões, a União Europeia ficou em segundo lugar, posição já ocupada em outros anos. Tudo isso ocorreu apesar da desastrosa diplomacia conduzida pelo presidente Jair Bolsonaro.

Desprezando ou ignorando os interesses nacionais, o presidente brasileiro continua seguindo fielmente seu líder americano, Donald Trump. Com essa obediência, pôs em risco o relacionamento do Brasil com vários países do Oriente Médio, importantes compradores de produtos brasileiros. Alinhou-se à Casa Branca nas disputas com o governo chinês, tomando partido de forma absolutamente desnecessária. Não cabe a Brasília entrar numa disputa entre dois dos maiores parceiros comerciais do País.

Há poucos dias esse erro foi repetido, na conferência de cúpula do Brics, quando o presidente Bolsonaro assumiu, perante os chefes de governo da Rússia, da China, da Índia e da África do Sul, as críticas de seu mestre Donald Trump à Organização Mundial da Saúde (OMS), à Organização Mundial do Comércio (OMC) e à ordem multilateral.

Para os outros chefes de governo, a reunião de cúpula do Brics pode ter sido apenas um desperdício, talvez uma desagradável perda de tempo. Para o presidente brasileiro, foi mais uma ocasião de manifestar fidelidade a seu líder e de confrontar, de novo, os governos defensores de uma séria agenda ambiental.

O governo brasileiro, segundo Bolsonaro, poderia apontar os países importadores de madeira extraída ilegalmente da mata brasileira, como se o atual governo brasileiro jamais houvesse facilitado a derrubada ilegal de árvores e a exportação irregular. Os dois pecados, como lembrou imediatamente a imprensa nacional, foram cometidos na gestão Bolsonaro.

Em vez de assumir, afinal, a defesa da Amazônia e de outros biomas sujeitos à devastação de grileiros, garimpeiros e madeireiros ilegais, o presidente insiste em manter uma posição rejeitada por brasileiros conscientes e responsáveis e amplamente condenada fora do Brasil.

Ao manter essa posição, o presidente Bolsonaro compromete a imagem da agropecuária, vinculando-a à devastação ambiental. A grande produção rural brasileira, eficiente e competitiva, é realizada majoritariamente em outras áreas e de forma ambientalmente responsável. Mas muitos milhões de estrangeiros ignoram esse e outros dados da geografia e da economia brasileiras e podem ser convencidos, muito facilmente, do caráter devastador do agronegócio brasileiro.

Ao insistir em sua política ambiental, o presidente Bolsonaro, ajudado pelos ministros de Relações Exteriores e do Meio Ambiente, favorece concorrentes do agronegócio nacional e seus interesses protecionistas. Esse protecionismo é politicamente forte na Europa. Os governos locais, mesmo os mais favoráveis ao comércio aberto, dificilmente poderiam opor-se aos protecionistas, nesse caso, quando o presidente brasileiro contesta os valores ecológicos internacionais, nega informações conhecidas de todos e trata a devastação como se fosse questão de soberania.

Bastaria um mínimo de percepção dos interesses nacionais para qualquer pessoa rejeitar a política do presidente, mas ele age como se fosse incapaz de atingir esse mínimo. Mais que uma fonte de dólares e de ocupações, o agronegócio é um fator de segurança econômica para o Brasil. Tem sido uma proteção contra crises cambiais, já experimentadas de modo muito doloroso em outros tempos. Mas o presidente talvez nem saiba o sentido dessas palavras ou tenha um mínimo conhecimento das vicissitudes já vividas pelo Brasil. Nesse sentido, pelo menos, é um inocente.

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