Bom começo na indústria

A atividade industrial cresceu em janeiro, favorecendo o aumento do emprego, segundo a Confederação Nacional da Indústria

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2019 | 03h00

A atividade industrial cresceu em janeiro, favorecendo o aumento do emprego, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Essa informação, uma das primeiras boas notícias sobre a economia em 2019, pode realimentar o otimismo do empresariado, mas a confiança na expansão dos negócios só se manterá, nos próximos meses, se o governo avançar na pauta de ajustes e reformas. Três indicadores muito importantes mostram o dinamismo em alta no começo do ano. O tempo de trabalho na produção, o número de empregados e o uso da capacidade instalada aumentaram em relação aos níveis de dezembro e de janeiro de 2018, de acordo com o relatório Indicadores Industriais da CNI.

Na comparação com dezembro, houve expansão de 1,5% nas horas de trabalho na produção e de 0,4% no emprego, descontados os fatores sazonais. No confronto com janeiro de 2018, houve aumentos de 1,4% e de 0,5% em cada um dos itens. O uso da capacidade instalada subiu de 77,6% em dezembro para 78,3%, na série com ajuste sazonal. Em janeiro de 2018 a utilização foi de 78,1%. 

Embora o relatório se refira ao nível de atividade, os indicadores de trabalho, quadro de pessoal e uso de equipamentos e instalações compõem um quadro de aumento da produção. O objetivo pode ter sido a mera recomposição de estoques, depois das vendas de fim de ano. Mas a maior atividade pode ter refletido também a expectativa de uma demanda maior ou pelo menos firme nos próximos meses. Não há dados, por enquanto, para uma resposta segura. 

Números do Ministério do Trabalho parecem confirmar a boa disposição dos administradores da indústria. O setor contratou 34.929 trabalhadores com carteira assinada, em janeiro, número só inferior ao da criação de postos formais nos serviços (43.449). 

Pelas informações da CNI e do Ministério do Trabalho, o empresariado industrial parece manter, por enquanto, uma atitude razoavelmente otimista, ou menos pessimista que no ano passado. Isso deve explicar sua posição diferenciada no último Índice de Confiança Empresarial (ICE) da Fundação Getúlio Vargas. 

Em fevereiro, o ICE caiu 0,7 ponto, para 97 pontos, depois de quatro altas consecutivas. Dos quatro setores consultados só a indústria apontou aumento do otimismo em relação ao mês anterior. Comércio, construção e serviços indicaram uma piora das expectativas. Quando se considera a média móvel trimestral, no entanto, houve elevação das avaliações em todos os setores. 

O indicador geral tem dois componentes, um Índice de Situação Atual e um Índice de Expectativas. O primeiro subiu de 91,3 pontos para 92,2. O segundo caiu de 103,2 para 101,7, mas ainda permaneceu acima de 100, fronteira entre o pessimismo e o otimismo.

Resta, portanto, no conjunto dos empresários, um “otimismo tímido em relação aos próximos meses”, comentou o superintendente de Estatísticas Públicas da FGV/Ibre, Aloísio Campelo Jr. “O resultado”, continuou, “sustenta a tese de que, passado o período de lua de mel com o novo governo, a retomada da confiança empresarial será limitada enquanto os níveis de incerteza econômica permanecerem elevados.” 

O relatório da CNI inclui, além de indicadores de maior atividade e maior produção, três números negativos. O faturamento real do setor foi 2% menor que o de dezembro e 0,2% inferior ao de janeiro do ano passado. Em relação às mesmas bases, houve quedas de 1,2% e 0,9% na massa real de salários e de 2,4% e 1,4% no rendimento médio real dos trabalhadores. A variação deve ser atribuível basicamente à inflação. Perda de rendimento real para os trabalhadores é má notícia quando se precisa do efeito estimulante do consumo. 

De toda forma, os indicadores positivos da indústria e do emprego formal são animadores, embora nada espetaculares. Mas nenhum setor garantirá o aumento da atividade, se o governo falhar. Até agora, a atuação do presidente Jair Bolsonaro, na reforma da Previdência, tem sido marcada mais pela série de recuos do que pela conquista de apoios. Não se ganha jogo só recuando. 

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