Bom sinal do lado dos preços

Depois de salto no começo do ano, a inflação, um dos maiores pesadelos para as famílias, começa a perder impulso

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 06h00

Depois de um salto no começo do ano, a inflação, um dos maiores pesadelos para as famílias, começa a perder impulso, segundo aponta o IPCA-15 de maio, com alta de 0,35%, menos de metade da variação anterior (0,72%). Preços de comida mais acomodados são um dos detalhes mais animadores desse quadro. Com base em dados colhidos entre o meio de um mês e o meio do mês seguinte, esse indicador é usado como prévia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal medida oficial da inflação. Mas nem tudo é bonito nesse IPCA-15. A variação foi a maior para o mês de maio desde 2016, quando bateu em 0,86%. Além disso, o indicador subiu 2,27% no ano - uma taxa ameaçadora - e 4,93% em 12 meses, superando com folga, portanto, a meta anual em vigor, de 4,25%.

Governo e mercado mantêm, no entanto, projeções em torno de 4,1% para a inflação de 2019. Parece confirmar-se uma previsão da equipe do Banco Central (BC): a inflação ainda se manteria acelerada por algum tempo e em seguida perderia vigor. Esse recuo decorreria, em boa parte, de uma evolução mais normal dos preços da alimentação, prejudicados entre o fim de 2018 e o começo de 2019 por eventos climáticos muito desfavoráveis.

No IPCA-15 de abril, o item alimentação e bebidas ainda apareceu com alta de 0,92% e impacto de 0,23 ponto porcentual na formação da taxa de 0,72%. No índice divulgado na sexta-feira, o mesmo item surge com variação nula. A maior parte da alta geral de 0,35% refletiu as variações de preços de transportes (0,65%) e saúde e cuidados pessoais (1,01%), cada uma com impacto de 0,12 ponto no índice total.

Os números do IPCA do mês devem confirmar a tendência apontada pelo IPCA-15, segundo avaliação de especialistas. Houve quem estimasse inflação abaixo de 0,2% em maio. As apostas variaram, mas convergiram para níveis bem menores que o de abril, quando o índice aumentou 0,57%.

A expectativa de uma inflação mais contida logo desatou comentários sobre uma possível baixa dos juros básicos antes do fim do ano. Há espaço para isso, de acordo com analistas do mercado. Segundo alguns, nenhum corte ocorrerá antes da aprovação do projeto de reforma da Previdência, mesmo com os preços bem comportados, isto é, evoluindo na direção da meta anual.

Qualquer previsão de uma baixa dos juros básicos neste ano, antes ou depois de aprovada a reforma, é muito arriscada. Os membros do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC, têm sido muito cautelosos em suas manifestações. Qualquer decisão sobre juros só virá, segundo afirmam, depois de um calmo exame das condições econômicas. Têm dado importância especial, em suas manifestações, às incertezas do cenário econômico e político, ressaltando, como se poderia esperar, a importância da reforma da Previdência.

Mas documentos do Copom têm mencionado, também, o baixo nível de atividade e a elevada capacidade ociosa de máquinas, equipamentos e mão de obra como um componente do quadro de inflação moderada. Como ficarão os preços, a partir de uma reanimação dos negócios e de uma expansão do emprego?

Para avaliar a conveniência de novos estímulos à economia, é preciso examinar todos esses fatores, com muito cuidado, e também levar em conta o balanço de riscos, as projeções de inflação e a firmeza das expectativas, lembrou há poucos dias o presidente do BC, Roberto Campos Neto. O avanço da pauta de reformas é só uma parte das condições necessárias à manutenção de boas expectativas quanto à inflação.

Além disso, é preciso levar em conta as expectativas antes da aprovação da reforma e também o quadro externo muito complicado. O conflito comercial entre Estados Unidos e China pode significar, para o Brasil, mais que um fator de enfraquecimento do mercado global. Esse conflito envolve, embora muitos pareçam esquecer esse detalhe, os dois maiores compradores de produtos brasileiros. Mesmo com a inflação contida, é cedo para pensar em corte dos juros básicos.

Mais conteúdo sobre:
inflação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.