Brasil-Argentina, bom começo

Parece clara a disposição de Jair Bolsonaro de pôr em primeiro plano a parceria com o maior vizinho sul-americano. Falta saber se julga prioritária a relação com o Mercosul

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2019 | 03h00

Há um simbolismo e um bom presságio na visita do presidente argentino, Mauricio Macri, a seu colega brasileiro Jair Bolsonaro. Macri foi o primeiro chefe de governo a visitar o presidente do Brasil depois de sua posse. Isso é uma prova, segundo afirmaram os dois em comunicado conjunto, da prioridade atribuída reciprocamente pelos dois países. A frase enfática logo no começo do texto e a repetição da palavra prioridade dois parágrafos adiante chamam a atenção. Não havia dúvida quanto à importância atribuída pelo governo da Argentina à relação com o Brasil. Agora parece clara a disposição do presidente brasileiro de pôr em primeiro plano a parceria com o maior vizinho sul-americano. Falta saber se passou a julgar prioritária a relação com o Mercosul. O tema foi tratado com desprezo e até com palavras duras, numa entrevista antes da posse, pelo então futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.

Houve manifestações de espanto e de preocupação, nos países vizinhos, depois dessa entrevista. As palavras do futuro ministro seriam menos inquietantes se fossem apenas um deslize diplomático. Mas a declaração indicava muito mais que isso. Era preciso saber, a partir desse momento, como os integrantes da nova equipe entendiam os compromissos internacionais do Brasil, o status do Mercosul (uma união aduaneira) e a importância do bloco regional como plataforma de integração no mercado internacional.

Como integrante de uma união aduaneira, o Brasil só poderia negociar acordos de livre comércio juntamente com os demais sócios do bloco, Argentina, Paraguai e Uruguai. Faltaria essa informação aos membros da nova equipe. O Mercosul ficou de fato emperrado por muito tempo, por causa de enormes erros cometidos pelos governos do PT e dos Kirchners, seus aliados argentinos.

O caminho sensato seria reavivar a vocação original do bloco, seguindo um projeto esboçado pelos presidentes Michel Temer e Mauricio Macri. Poderia haver enormes avanços internos e externos. O caminho poderia ser diferente, se o novo governo preferisse imitar também na política regional a truculência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inspirador do presidente Bolsonaro, de seus filhos e do chanceler Ernesto Araújo. Mas seria mais fácil mexer na área de livre comércio formada por Estados Unidos, Canadá e México do que na união aduaneira constituída pelos sócios do Mercosul. Ninguém teria notado esse detalhe?

Talvez o presidente Jair Bolsonaro tenha decidido prosseguir no caminho desenhado por seu antecessor. No fim da declaração conjunta aparece a decisão de trabalhar para “rever a tarifa externa comum, melhorar o acesso a mercados e avançar em facilitação de comércio e convergência regulatória”. O texto ainda menciona a intenção de impulsionar as negociações mais promissoras já em curso e avaliar o início de novas conversações com outros parceiros.

Tudo isso é promissor: o comunicado conjunto oficializa o compromisso de aperfeiçoar o Mercosul e ao mesmo tempo avançar em novas negociações, obviamente sem as limitações terceiro-mundistas da fase do PT e dos Kirchners. Mas qualquer aposta segura nessa atitude menos trumpiana ainda vai depender de novas manifestações da diplomacia econômica do governo Bolsonaro. Não há como esquecer facilmente nem a profissão de fé trumpista do chanceler Ernesto Araújo nem a foto de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, com o boné de campanha de Donald Trump.

A maior parte da declaração conjunta propõe a atuação bilateral em diferentes áreas “com maior potencial”, como segurança interna e regional, articulação jurídica, combate ao crime transnacional e à corrupção e cooperação nas áreas de defesa, tecnologia e infraestrutura, entre outras.

Pode ser o começo de uma diplomacia mais civilizada e realista do que aquela desenhada nas primeiras declarações sobre política externa. Diante disso, parece pouco significativo, agora, o risco de um projeto de construção de algum muro de milhares de quilômetros nas fronteiras. Seria um desastre para as finanças públicas.

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