Brasil longe do crescimento estrutural

Baixo investimento limita o potencial de crescimento do País e o torna menos atraente para o investidor estrangeiro

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2022 | 03h00

Com desempenho fraco e baixo potencial de crescimento, a economia brasileira só terá algum atrativo especial para o investidor estrangeiro, em 2022, se a eleição prenunciar a redescoberta das políticas de modernização e crescimento. As projeções mais otimistas seguem apontando uma economia travada, com baixo consumo das famílias empobrecidas, pouco investimento produtivo e indústria em declínio. O Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 0,6% neste ano, segundo o Boletim Macro de fevereiro da Fundação Getulio Vargas (FGV). Essa taxa é o dobro daquela estimada no mercado financeiro, segundo a última pesquisa Focus publicada pelo Banco Central (BC). Têm surgido poucas projeções mais altas, na faixa de 1% a 2%, mas também esses números são muito inferiores àqueles observados internacionalmente.

A atração de investimentos depende principalmente do crescimento estrutural, observou em recente palestra o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Ele se referiu, com essas palavras, àquele ritmo de expansão sustentável, durante vários anos, pela capacidade produtiva de um país. No Brasil, as projeções de crescimento estrutural têm caído e agora se situam em torno de 1,5% ao ano, acrescentou Campos Neto.

Números parecidos com esse são encontrados nas estimativas de expansão econômica de médio e de longo prazos, quando se trata do Brasil. Esse padrão, com taxas máximas de 2%, é visível nas publicações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e nas edições semanais da pesquisa Focus. Há muitos anos o crescimento estrutural da economia brasileira é considerado inferior àqueles normalmente estimados para as potências classificadas como emergentes.

Crescimento estrutural está vinculado ao potencial produtivo. Esse potencial é determinado por vários tipos de investimentos. Alguns são destinados a ampliar o capital físico – máquinas, equipamentos, construções privadas e obras de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, portos, sistemas energéticos e de saneamento. Outros são realizados para expandir e valorizar outro tipo de capital, geralmente mais escasso nas economias em desenvolvimento: ciência, tecnologia, práticas inovadoras e, naturalmente, mão de obra educada, qualificada e capacitada para absorver treinamento e novas competências. No Brasil, todos esses tipos de investimento têm sido insuficientes e, além disso, têm ficado abaixo das possibilidades do País.

No caso do investimento em capital físico, um dos objetivos da política econômica, nas últimas duas décadas, foi alcançar um nível equivalente a 24% do PIB, superado, às vezes com folga, em muitas economias emergentes e em desenvolvimento. Mas a média de 18%, observada no Brasil nesse período, foi raramente ultrapassada. Em 2021 a taxa deve ter ficado pouco acima de 19%, segundo a edição de fevereiro do Monitor do PIB-FGV. O valor investido foi 16,7% maior que o de 2020, quando a onda inicial de covid-19 prejudicou severamente a atividade econômica e afetou, naturalmente, a capacidade de investir tanto das empresas quanto do setor público.

Mas a recuperação observada em 2021 perdeu impulso. Pelas novas estimativas da FGV, a modesta expansão de 0,6% prevista para o PIB será a resultante de números medíocres em vários tipos de atividades. A agropecuária crescerá apenas 2,8%, em parte por causa das perdas causadas por problemas climáticos. A produção de serviços avançará 1,3% e a da indústria geral encolherá 1,1%, segundo as projeções.

No setor industrial, o pior desempenho será o do ramo de transformação, com resultado negativo de 3,2%. Esse ramo inclui tanto a produção de bens de consumo, como roupas, automóveis, sapatos, televisores, liquidificadores, telefones celulares, medicamentos, produtos de beleza e material escolar, quanto a de bens de produção, como tratores, escavadeiras, tornos mecânicos e geradores elétricos. O futuro também estará comprometido, com o investimento em capital físico encolhendo 3,9% e prejudicando, nos anos seguintes, o tão importante crescimento estrutural.

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