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Brasil, vendedor de commodities

Alta tecnologia é pouco presente nas exportações do setor industrial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 23h50

Os dólares necessários à segurança externa da economia brasileira continuam garantidos pelo agronegócio, pela mineração e por outros segmentos produtores de commodities – matérias-primas e mercadorias de baixa elaboração. Graças a esses exportadores, o País acumulou superávit comercial de US$ 37,50 bilhões no primeiro semestre, com saldo recorde de US$ 10,37 bilhões em junho. Bons preços externos, sustentados pela recuperação internacional, especialmente do mercado chinês, principal cliente do Brasil, têm favorecido as exportações nacionais.

A indústria de transformação responde por metade ou pouco mais das vendas externas brasileiras, segundo a classificação oficial. O resto se divide entre agropecuária e indústria extrativa, isto é, atividade mineradora. Essa classificação obscurece o peso das commodities na geração da receita comercial e do superávit mantido regularmente há muitos anos. De janeiro a junho a agropecuária faturou US$ 32,28 bilhões com as vendas ao exterior. A indústria extrativa obteve US$ 38,123 bilhões. A indústria de transformação chegou a US$ 65,66 bilhões, 48% de toda a receita comercial. Mas é preciso olhar alguns detalhes para ter visão mais precisa dos ganhos conseguidos com as vendas externas.

Nove dos dez principais grupos de produtos exportados pela indústria de transformação, no primeiro semestre, foram commodities, como açúcares e melaços, farelos de soja e outros alimentos para animais, carne bovina fresca, refrigerada ou congelada e óleos combustíveis de petróleo. Esses nove grupos proporcionaram receita de US$ 29,13 bilhões, valor correspondente a 39,80% do total faturado com as vendas da indústria de transformação. Um exame mais detalhado indicaria uma participação maior.

Em junho, nove produtos do agronegócio renderam US$ 4,36 bilhões de receita comercial. O faturamento obtido com seis outros tipos de commodities, como produtos semiacabados de ferro, cal, cimento e alumina, chegou a US$ 2,12 bilhões. Somados os dois grupos, a receita contabilizada com essas commodities atingiu US$ 6,48 bilhões, 58% dos US$ 12,70 bilhões conseguidos com as vendas da indústria de transformação.

Essa indústria exportou, é claro, produtos muito mais elaborados e mais complexos, como aeronaves e equipamentos (US$ 304,90 milhões), automóveis (US$ 278,55 milhões), instalações e equipamentos de engenharia civil (US$ 211,84 milhões), geradores elétricos e componentes (US$ 130,14 milhões) e muitos outros, como máquinas, aparelhos elétricos, veículos rodoviários, calçados, tecidos e vestuário. Mas o peso das commodities nas exportações da indústria de transformação é indisfarçável. É ótimo ser competitivo em commodities, mas é preciso ambicionar mais que isso.

A indústria de média e alta tecnologia tem, portanto, participação restrita nas exportações, apesar da presença relevante dos segmentos aeronáutico, automobilístico e de equipamentos mecânicos e elétricos. Além disso, parte importante das vendas industriais está concentrada no mercado sul-americano. A maior parte das exportações do setor automobilístico depende do Mercosul, especialmente da Argentina.

O baixo dinamismo dos segmentos de tecnologia média e alta – sempre com as exceções mais evidentes – tem sido apontado por entidades do próprio setor industrial, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O alto custo Brasil e a pobreza das políticas de desenvolvimento tecnológico e de estímulo à inovação têm sido incluídos com destaque entre as explicações. Não se pode ignorar, nessa discussão, a importância da baixa integração global da economia brasileira. O protecionismo é parte do problema, certamente, mas uma política eficaz tenderia a combinar a abertura comercial com maior participação em acordos internacionais e programas de aumento de competitividade.

Pouco se fez para estimular a modernização, a inovação e a competitividade nos últimos 20 anos. Essa falha se agravou a partir de 2019, quando até a noção de planejamento sumiu da pauta governamental.

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