Brexit, a novela

Para o Parlamento, não haverá Brexit sem acordo. Johnson quer manter o cronograma de saída. É pouco provável que vença

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 03h00

A enrascada em que o ex-premiê David Cameron colocou os britânicos em 2016 - ao convocar um plebiscito sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) - já levou à queda de dois primeiros-ministros: o próprio Cameron e sua sucessora, Theresa May. Não será surpresa que, nos próximos dias, o Brexit também custe o cargo do conservador Boris Johnson, atual ocupante do número 10 de Downing Street.

Um Johnson bastante resoluto assumiu a chefia de governo no final de julho disposto a renegociar os termos do acordo de saída firmado por sua antecessora e as lideranças europeias em Bruxelas, que não admitem novas rodadas de negociação, ou, no limite, seguir o cronograma de saída e levar o Reino Unido para fora da UE, “com ou sem acordo”, no dia 31 de outubro.

Não apenas os impasses permanecem - o principal deles em relação à fronteira entre as Irlandas (ver editorial Novo premiê, mesmas incertezas, publicado em 25/7/2019) -, como a obstinação de Johnson em manter o cronograma de saída mesmo sem um acordo - o chamado “Brexit duro”, como ficou conhecido - não tem respaldo no Parlamento. Não foi outra a razão que levou à queda de Theresa May, um precedente que Boris Johnson parece querer desafiar.

Ontem, a Câmara dos Comuns aprovou em primeiro turno, por 329 a 300 votos, uma lei que impede o Reino Unido de deixar a UE sem acordo. Foi a segunda derrota legislativa de Boris Johnson em apenas 48 horas. Na véspera, os parlamentares aprovaram, por 328 a 301 votos, a retomada do controle do cronograma do Brexit pelo Poder Legislativo após o premiê ter perdido a maioria no Parlamento.

Num gesto surpreendente, o deputado Philip Lee deixou a bancada do Partido Conservador enquanto Boris Johnson discursava, cruzou o salão e se sentou ao lado dos liberais democratas, da oposição. Apenas um assento garantia a maioria à coalização formada pelo Partido Conservador e pelo Partido Unionista Democrático (DUP), responsável por alçar Johnson ao cargo de primeiro-ministro.

Mesmo sem maioria, Boris Johnson continua à frente do governo até que o Parlamento aprove um voto de desconfiança contra ele. O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, tem a prerrogativa de convocar essa votação, mas por ora não há indicações de que a fará porque ele mesmo não tem maioria para ser eleito premiê. Neste caso, uma vez derrubado Boris Johnson, eleições gerais teriam de ser convocadas, aumentando o quadro de incertezas.

Um Brexit sem acordo imporia enormes perdas para os dois lados da mesa de negociação, mas reputados analistas têm sido unânimes em alertar que o Reino Unido seria o maior perdedor. A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) é que o “Brexit duro” represente uma perda anual de US$ 16 bilhões em comércio com a UE. Evidentemente, fora do bloco, o Reino Unido terá condições de negociar acordos comerciais com outros atores internacionais, mas nenhum desses acordos seria suficiente para fazer frente às perdas causadas pela saída da UE.

A convocação do plebiscito de 2016 se revelou uma trapalhada política de David Cameron. Não por acaso, custou-lhe o cargo. No entanto, é bom que se diga que o Brexit não é fruto de um desvario absoluto. Há razão em muitas queixas dos cidadãos europeus em relação à perda de soberania para a “burocracia de Bruxelas” para lidar com problemas locais. No entanto, romper com a UE sem acordo é um contrassenso porque o mundo é regido por cadeias globais de comércio em que nenhum país, isoladamente, tem força para fazer valer a sua vontade. Os países europeus sabem que seu poder de barganha como membros da UE é um; fora dela é outro. Em 2016, David Cameron chamou de “ilusão de soberania” esse arroubo de saída do Reino Unido da UE.

O Parlamento britânico está convicto de que não haverá um Brexit sem acordo. Boris Johnson se mantém firme na disposição de ir até o fim no cumprimento do cronograma de saída, inclusive requerendo a suspensão do Parlamento. É pouco provável que o premiê vença essa disputa.

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