Briga de lavadeiras

No momento em que a articulação política é necessária, ministros dedicam energia a trocar ofensas, a maldizer colegas no Congresso e a provocar o presidente da Câmara

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 03h00

O desemprego atingiu 14,4% no trimestre encerrado em agosto e está em franca aceleração – o índice foi de 12,9% no trimestre encerrado em maio e de 11,8% no mesmo período do ano passado. Já são 13,8 milhões de brasileiros procurando emprego sem sucesso. Foram fechados 12 milhões de vagas em um ano, reduzindo a população ocupada em 12,8% em relação a agosto de 2019. Só nos últimos dois trimestres, a população ocupada diminuiu 5%, o equivalente a 4,3 milhões de desempregados, e a maior parte das vagas fechadas era com carteira assinada. 

Considerando-se também os trabalhadores subocupados – que trabalham menos do que podem – e os desalentados – que poderiam trabalhar, mas desistiram de procurar emprego e, por isso, não são considerados desempregados –, chega-se a uma massa de 33,3 milhões de brasileiros em situação crítica neste momento de grave crise.

Enquanto isso, o governo não parece ter se dado conta nem do tamanho nem da urgência do problema que lhe cabe administrar. Nos últimos dias, ministros importantes dedicaram energia a trocar ofensas em redes sociais, a maldizer colegas no Congresso e a provocar em termos infantis o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, justamente no momento em que a articulação política inteligente se faz tão necessária.

Num resumo rápido, mas suficiente para confirmar o baixíssimo nível do governo Bolsonaro, tivemos o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chamando o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, de “Maria Fofoca”, acusando-o de plantar notas na imprensa para atacá-lo. 

“Não satisfeito em destruir o meio ambiente, (o ministro Salles) agora resolveu destruir o próprio governo”, ironizou Rodrigo Maia no Twitter. Em resposta, o perfil de Ricardo Salles no Twitter retrucou chamando o presidente da Câmara de “Nhonho” – personagem rechonchudo do seriado infantil Chaves, que se tornou o apelido maldoso dado pelos bolsonaristas a Rodrigo Maia nas redes sociais. Salles jura que não foi ele quem cometeu a grosseria, mas os bolsonaristas vibraram.

Logo depois foi a vez do ministro da Economia, Paulo Guedes, protagonizar constrangedor episódio. Em audiência pública no Congresso, o “superministro” acusou a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de financiar “programa de ministro gastador para enfraquecer ministro que quer acabar com privilégios”. O “ministro gastador” é Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, e o “ministro que quer acabar com privilégios” é, claro, ele mesmo, Paulo Guedes. Além de voltar à carga contra seu desafeto favorito, o ministro da Economia fez grave acusação de que um colega seu é lobista de bancos para sabotá-lo.

Enquanto isso, a votação do Orçamento está travada no Congresso, graças a uma obstrução patrocinada pelos próprios governistas; nenhuma reforma avança, como consequência da inação e das barbeiragens do governo; e o Pantanal continua a arder, sob o olhar indiferente do ministro do Meio Ambiente. 

A consequência natural, diante dessa entropia, é a fuga de investidores, de que a disparada do dólar é símbolo maior. As perspectivas são as piores possíveis, com a escalada acelerada da dívida pública e com a previsão de alta de juros e da inflação. Por uma infeliz confluência de fatores políticos, coube ao mais despreparado presidente da história brasileira conduzir o País neste momento de profunda crise, e é claro que isso não ajuda a resgatar a confiança dos investidores.

Enquanto seus ministros se comportam como lavadeiras a brigar na beira do rio, o presidente da República, líder de todos eles, dedica sua atenção integral à sua campanha pela reeleição, inaugurando trecho de obras, bebendo guaraná em botequins e prometendo “mandar embora o comunismo no Brasil”. Entre um evento e outro, o presidente achou tempo para dizer que “está dando certo a economia nossa” – frase em que o mau português é o menor dos problemas.

O caos em Brasília é o retrato de um governo cujo presidente fez carreira política com o discurso da destruição e da discórdia. Seus ministros brigões só estão se inspirando no chefe.

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