Brincando com a cidade

O prefeito Bruno Covas resolveu acrescentar mais um capítulo – e infeliz – à longa novela do Minhocão

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2019 | 03h00

O prefeito Bruno Covas resolveu acrescentar mais um capítulo – e infeliz – à longa novela do Minhocão, que se arrasta há 48 anos, desde que essa via elevada de 3,4 quilômetros de extensão, a maior parte entre prédios residenciais, foi inaugurada pelo prefeito Paulo Maluf. O Minhocão logo se revelou um problema complicado, pois é ao mesmo tempo difícil ficar sem ele – que passou a desempenhar papel importante no sistema viário, na ligação leste-oeste – e ficar com ele, qualificado de monstrengo por urbanistas e arquitetos.

O prefeito anunciou que ainda no segundo semestre deste ano começarão as obras para desativar um primeiro trecho do Minhocão – que de Elevado Costa e Silva passou recentemente a João Goulart –, entre a Praça Roosevelt e o Largo do Arouche, a serem concluídas em 2020. Mas ao mesmo tempo, demonstrando incompreensível insegurança para quem vai iniciar obras estimadas em R$ 38 milhões, Covas não descarta a possibilidade de desmanchar tudo o que será feito e devolver o trecho à circulação de carros, caso a desativação se revele inviável para o trânsito, segundo reportagem do Estado. Se correr tudo bem, dentro do que a Prefeitura entende por isso, o restante da via elevada poderá ter o mesmo destino, se assim decidirem os sucessores de Covas.

Nesse tempo em que a cidade será transformada em campo de experiência, serão construídos nove pontos de acesso e elevadores para os pedestres chegarem e saírem do parque em que se transformará esse trecho do Minhocão. Além da colocação de grades laterais para aumentar a segurança e da colocação de bancos e a criação de áreas verdes, os apartamentos de prédios vizinhos do Minhocão poderão construir passarelas para ligá-los à via e transformá-los em pontos comerciais, como bares e restaurantes. Assim serão os 17,5 mil m² do parque que passará a existir, se tudo der certo, nos 900 metros do trecho do Minhocão entre a Praça Roosevelt e o Largo do Arouche.

Covas reconhece que sua proposta é polêmica, como de resto o foram igualmente as muitas outras anteriores de desativação dessa via elevada. Não por acaso, a Prefeitura admitiu ter desistido de sua ideia original – a mesma de alguns de seus antecessores – de derrubar todo o Minhocão e revitalizar a Rua Amaral Gurgel e as Avenidas São João e General Olímpio da Silveira. Recuou diante do custo elevado dessa obra – a demolição de uma estrutura daquele porte e a remoção de seu entulho. Dificuldade que salta aos olhos até mesmo dos leigos no assunto.

E há um outro problema tão importante quanto esse do qual Covas, pelo menos até agora, não tratou como deveria: o dos transtornos para o trânsito que a desativação do Minhocão acarretará, a parcial já agora e, com mais forte razão, a total no futuro. Ele é um elemento fundamental do sistema viário como elo de ligação entre o leste e o oeste da capital. Como já chamou a atenção, em outra ocasião em que tratou do assunto, um dos mais respeitados especialistas em engenharia de tráfego, Luiz Célio Bottura: “Simplesmente num passe de mágica eliminar uma via que tem 80 mil veículos por dia é arriscado. Teria de fazer uma remodelação no entorno”. E disso não se tratou seriamente ainda.

Outro especialista, Sérgio Ejzenberg, prevê problemas já com a desativação desse primeiro trecho, porque os veículos que hoje circulam por ele vão aumentar o congestionamento na região. Se o Minhocão fosse desmontado, diz, as avenidas que ficam embaixo dele poderiam ser remodeladas e criadas mais faixas para carros e bicicletas. Como Covas já afastou essa hipótese pelo seu custo, não haverá nem mesmo como aliviar as consequências negativas para o trânsito.

Outro elemento particularmente lastimável neste caso é a sensação de improviso com assunto tão sério que transmite a admissão de um recuo – com os consequentes prejuízos e transtornos para a população – da desativação desse primeiro trecho do Minhocão, depois da obra concluída. Não é assim – com essa ligeireza – que se tratam assuntos de interesse público.

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