Caixas-pretas econômicas

Lula e Bolsonaro se recusam a discutir seus planos de política econômica. O pior não é que não os tenham, mas que sejam os mesmos que provocaram e aprofundaram a crise

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2022 | 03h00

Mal saída da UTI, respirando com um balão de oxigênio após a pandemia, a economia global foi atropelada pela guerra de Vladimir Putin. As rupturas nas cadeias de fornecimento recrudesceram a fome no planeta e o puseram na rota da estagflação. Tanto pior para o Brasil, ainda convalescente após a recessão de 2015-16. Desemprego alto, inflação acelerada e baixo crescimento estão contratados no futuro próximo.

Nesta tempestade perfeita, seria de esperar que os dois candidatos com o bloco na rua desde sempre e que lideram as pesquisas estivessem promovendo rodadas de debate acaloradas entre aliados, recrutando tropas de economistas e mobilizando publicistas para explicar seus diagnósticos e advogar seus planos.

Nada disso. Como confessou Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Time, “a gente não discute política econômica antes de ganhar as eleições”. Jair Bolsonaro não se exprimiu com tanta candura. Nem precisava. Ele nunca escondeu sua ignorância em economia, e ainda tentou revesti-la com uma pátina de humildade, delegando-a ao seu “Posto Ipiranga”, o “superministro” Paulo Guedes.

Em 2018 havia algo remotamente parecido a um programa econômico bolsonarista. Falava-se em redução da dívida, abertura de mercado, modernização do funcionalismo, redução de impostos, renúncias e alíquotas e privatizações trilionárias.

Dizer que o governo não fez nada disso é uma meia-verdade. Inação era de fato a assinatura da política econômica bolsonarista até a primeira metade do mandato. Depois foi submissão. Agora nas mãos dos próceres do Centrão, ela serve para abastecer os apetites paroquiais de uma seleta clientela parlamentar e as ambições eleitorais de Bolsonaro.

Já Lula tem uma fórmula: “Eu tenho a certeza de que esses problemas (do Brasil) só serão resolvidos quando os pobres estiverem participando da economia, quando os pobres estiverem participando do orçamento, quando os pobres estiverem trabalhando, quando os pobres estiverem comendo”. Seria o equivalente a um médico dizer a seu paciente: “Eu tenho certeza de que você não estará mais doente quando estiver saudável”. A questão, obviamente, é como.

A resposta de Lula é olhar para trás. À Time ele soltou alguns números sobre reservas internacionais, IPOs, dívida internacional, que comprovariam que ele é “o único candidato com quem as pessoas não deveriam ter essa preocupação”. Mas mesmo admitindo-se um bom desempenho no primeiro mandato, 20 anos depois as condições são outras. Os pilares macroeconômicos herdados da era FHC estão despedaçados e não há nada no horizonte similar ao boom das commodities que permitiu a elevação dos gastos públicos e dos créditos que deram à ampliação do consumo a aparência de crescimento.

De resto, quem olha para trás, antes de encontrar as promessas do “social-desenvolvimentismo” petista em 2003, se choca com a catástrofe fabricada por ele em 2015-16. É ela a maior responsável por tirar dos pobres trabalho, comida ou investimentos.

O buraco só não foi mais fundo em razão da reforma da Previdência, aprovada no governo Bolsonaro, e pelas medidas tomadas ou encaminhadas no governo Temer, como a ancoragem fiscal e a reforma trabalhista, as mesmas que Lula promete revogar sem propor nada em troca. “Quem é que disse que o Brasil precisa de reformas?”, disse em outra entrevista.

Quem se esforça por desacreditar a polarização entre os populismos bolsonarista e lulopetista pode se sentir vindicado. De fato, em relação a mecanismos econômicos cruciais, como o teto de gastos ou as agências reguladoras, eles convergem: ambos querem implodi-los.

A degradação que esses populismos causaram no debate público é tamanha que os dois candidatos dispensam até aquela homenagem que o vício presta à virtude, a hipocrisia. Em outros tempos, demagogos como eles conjuravam planos tão grandiloquentes como vagos nas eleições, para depois terceirizar a culpa por seus malogros. Agora, nem isso. Simplesmente pedem cheques em branco em troca de caixas-pretas. Tanto pior quando se sabe que elas são só mais das mesmas caixas de Pandora que precipitaram a economia nacional na desolação em que está.

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