Capital humano, o mais escasso

Não basta investir em capital físico, quando falta mão de obra preparada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 03h00

Qualidade da mão de obra tem sido o grande entrave ao crescimento econômico da América Latina, segundo estudo recém-divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Não basta investir em capital físico, isto é, em máquinas, equipamentos e obras, quando o capital humano é escasso, advertem os autores da pesquisa. O quadro fica mais completo, e mais feio, quando se levam em conta as instituições e o ambiente de negócios. Tudo isso se aplica ao Brasil, obviamente, e com um fator agravante, o baixo nível de investimento em capital fixo, especialmente nos últimos dez anos. Impossível ler esse relatório sem pensar numa das maiores façanhas do presidente Jair Bolsonaro – tornar muitíssimo pior uma política educacional já muito deficiente.

A pobreza do capital humano na América Latina ficou ainda mais visível nos últimos 30 anos. As comparações internacionais mostraram, nesse período, um dinamismo muito maior de outros grupos de economias. Em 1990 o Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, na média latino-americana, era pouco superior a um quarto daquele encontrado nos Estados Unidos. Na Ásia, o PIB per capita dos países emergentes e em desenvolvimento equivalia a cerca de 5% do americano. Em 2019 os latino-americanos continuavam na mesma posição, enquanto os asiáticos haviam avançado quatro vezes.

A importância do capital humano se torna mais clara quando o estudo se concentra na comparação de um país europeu e oriundo do bloco socialista, a Polônia, e uma grande economia latino-americana, o México. Na Polônia, a relação porcentual entre investimento fixo e PIB é bem menor que na Ásia e um pouco inferior à observada no México. Em um quarto de século o investimento mexicano, medido como porcentagem do PIB, foi maior que o polonês, mas seu produto per capita cresceu muito menos.

Alguns dados do Banco Mundial proporcionam uma visão mais clara do quadro. Em 1995 o México investiu cerca de 19,5% do PIB. Em 2019, cerca de 21%. Durante esse período a taxa oscilou nesse intervalo. No caso da Polônia, a proporção partiu de 17,5% em 1995 e chegou a cerca de 19%, ou pouco menos, em 2019, oscilando na maior parte do tempo nessa faixa.

Nesse período, no entanto, o PIB polonês por habitante cresceu cerca de 38%, enquanto o mexicano avançou 10,8%, aproximadamente. As comparações baseiam-se em valores fixados pela paridade do poder de compra. A Polônia conseguiu, portanto, produzir muito mais com uma acumulação menor de capital físico. A principal explicação, assinalam os autores do estudo, deve estar na eficiência maior do capital humano disponível na Polônia.

Essa eficiência decorre basicamente da educação e do treinamento. Com os mesmos equipamentos trabalhadores mais qualificados conseguem produzir mais que aqueles menos preparados. Vários estudos mostram a superioridade produtiva dos países europeus de renda média quando comparados com os latino-americanos. A diferença é explicável e atribuível principalmente a capital humano e governança.

O Brasil aparece mal em todos os confrontos. Em governança é o antepenúltimo dos latino-americanos, acima de México e Paraguai, segundo o Banco Mundial. Em capital humano é o penúltimo, acima somente do Paraguai. O Chile é o destaque positivo na América Latina, com desempenho parecido com o dos emergentes europeus em vários tipos de classificação.

Estudantes brasileiros têm-se mantido, regularmente, nas últimas posições nos testes Pisa de linguagem, matemática e ciências, uma importante referência para as comparações internacionais de educação fundamental. Há escolas de alta qualidade, públicas e privadas, mas o padrão dominante é insatisfatório.

O presidente Bolsonaro chegou a mencionar o Pisa em uma rara declaração sobre a qualidade do ensino, mas ele cuidou mesmo, até hoje, de dois problemas imaginários, uma suposta esquerdização do ensino e uma fantasiosa valorização de uma “ideologia de gênero”. Seu ministro da Educação mais duradouro, Abraham Weintraub, mostrou-se à altura dessas preocupações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.