Carnaval com ordem

O carnaval de rua de São Paulo cresceu rapidamente nos últimos anos e adquiriu dimensões impressionantes

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2019 | 03h00

O carnaval de rua de São Paulo cresceu rapidamente nos últimos anos e adquiriu dimensões impressionantes – estima-se que mais de 500 blocos devem participar da festa neste ano, o que é muito bom para a população de uma cidade carente de meios de diversão e que já foi considerada o “túmulo do samba”. O paulistano, que tanto trabalha o ano todo, merece isso. A festa tem a vantagem de ser também um bom negócio, o que é importante num momento em que a economia ainda enfrenta graves dificuldades: a Confederação Nacional do Comércio prevê que a receita em serviços na capital durante o carnaval deve atingir R$ 1,9 bilhão.

Mas uma festa com o tamanho que o carnaval paulistano tem mexe com a vida da cidade inteira – boa parte dos serviços e todo o sistema viário –, o que as autoridades municipais não podem perder de vista. Além disso, devem considerar também que dela não participa boa parte da população, que tem exatamente os mesmos direitos da outra: porque não gosta e não quer (crianças e idosos) ou porque o trabalho que faz, como em hospitais, por exemplo, não o permite, por não poder ser interrompido.

Isso as autoridades não têm feito a contento até agora e não custa esperar que mudem neste ano. O que se espera delas é basicamente organizar a festa, providenciando policiamento adequado em entendimento com o governo do Estado, e determinando em que ruas e avenidas as centenas de blocos podem desfilar, de acordo com planejamento feito pelos órgãos encarregados de organizar e disciplinar o trânsito, tendo em vista os interesses dos variados setores da população e o bom funcionamento de serviços essenciais.

A retirada pela Prefeitura da Avenida 23 de Maio daquelas vias foi uma providência acertada, que levou em conta a experiência infeliz do ano passado, que paralisou uma artéria fundamental do sistema viário e permitiu que o barulho ensurdecedor dos blocos e seus sistemas de som infernizasse a vida de milhares de paulistanos e, o que é ainda mais grave, de pacientes de vários hospitais localizados nas imediações. Mas lamentavelmente ela compensou essa medida sensata pela insensatez de permitir desfiles em outra via importante, a Avenida Luís Carlos Berrini.

É igualmente lamentável constatar que, para os desfiles que antecedem ao início oficial do carnaval, a Prefeitura também demonstrou falta de organização e planejamento. No bairro Santa Cecília, por exemplo, onde se localiza a Santa Casa, que mantém o principal pronto-socorro da capital, não foram tomados os cuidados que a situação exige. É verdade que a Prefeitura não concedeu uma pretendida autorização para incluir a Rua Dona Veridiana, onde existe uma das entradas para a Santa Casa, nas ruas por onde desfilam blocos. 

Mas a concessão dessa permissão a outras vias nas proximidades, como as Ruas Martim Francisco e Imaculada Conceição, dificulta o acesso àquele pronto-socorro, na medida em que tumultua o trânsito numa ampla área do bairro, sem falar na vida de muitos de seus moradores. E os erros cometidos ali não se limitam à imprudente abertura dessas vias aos blocos. Eles incluem também, como se queixam moradores, de falta de comunicação da Prefeitura sobre a autorização dada e sobre os horários de fechamento das ruas, providência elementar para que idosos e pais com bebês possam organizar sua vida ali durante o carnaval, ou mesmo ir para casas de parentes e amigos. Em alguns casos, foram os blocos que forneceram aquelas informações.

É razoável supor que essa situação se repita em outros dos muitos bairros pelos quais desfilarão os mais de 500 blocos do cada vez mais concorrido carnaval de rua de São Paulo. Ainda há tempo para a Prefeitura corrigir suas falhas e tentar organizar melhor o carnaval, de forma a satisfazer tanto os que querem se divertir como os que preferem descansar, além – nunca é demais insistir – de garantir que serviços essenciais, como o de saúde, não tenham seu funcionamento prejudicado. O carnaval não é incompatível com um mínimo de organização. 

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