Carnificina

A comunidade internacional não pode medir esforços para impedir a violação de leis humanitárias

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2022 | 03h00

A guerra de Vladimir Putin está prejudicando o planeta. Sob a angústia de uma possível hecatombe nuclear, a população mundial empobrece com a inflação. As rupturas nas cadeias de fornecimento e nos preços dos combustíveis, grãos e fertilizantes impactam, sobretudo, os mais pobres, plantando sementes de instabilidade política em toda a parte. Na Rússia, a economia segue em queda livre e a população sofre as mais brutais repressões desde Stalin. Mas, evidentemente, esse sofrimento não é mais que um pálido reflexo da catástrofe que abateu os ucranianos.

“O país está sendo dizimado ante os olhos do mundo”, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres. “O impacto sobre os civis atingiu proporções aterradoras. Incontáveis inocentes – incluindo mulheres e crianças – foram mortos. Após serem atingidos por forças russas, estradas, aeroportos e escolas estão em ruínas. De acordo com a OMS, ao menos 24 instalações de saúde sofreram ataques. Centenas de milhares de pessoas estão sem água ou eletricidade.”

Quase 2 milhões de ucranianos já se deslocaram no país e mais de 2,8 milhões cruzaram as fronteiras.

O cerco a Mariupol ilustra as táticas selvagens de Putin. A cidade é um posto estratégico para conectar a Crimeia às regiões ocupadas no leste e bloquear um porto crucial para a Ucrânia. Mas, acima de tudo, está sendo usada como um exemplo para aterrorizar os ucranianos.

Os habitantes não podem fugir, suprimentos não podem entrar, e a cidade tem sido implacavelmente bombardeada. A prefeitura fala em 2 mil civis mortos, mas há estimativas que chegam a 10 mil. Uma maternidade foi destruída por um foguete. Os russos anunciam corredores humanitários, mas tão logo começam a operar, os bombardeios recomeçam. Há relatos de fugitivos alvejados pela artilharia.

Quaisquer que sejam os caminhos para as negociações entre Rússia e Ucrânia, a prioridade para a comunidade internacional é forçar canais de suprimento e corredores humanitários. A Europa mostrou generosidade no acolhimento dos refugiados, mas precisará de uma estratégia para servi-los com trabalho, moradia, escola e saúde. Independentemente das razões geoestratégicas das nações que se negam a condenar a invasão, elas devem ser pressionadas a integrar uma coalizão humanitária, especialmente Índia e China.

“A escalada da guerra, por acidente ou cálculo, ameaça toda a humanidade”, alertou Guterres. “É hora de parar o horror precipitado sobre o povo da Ucrânia e se engajar no caminho da diplomacia e da paz.” Sem dúvida. Mas a verdade é que, no momento, esse caminho estreito e tortuoso tem sido obliterado por Putin. A maioria dos países e pessoas no mundo está de mãos atadas e não pode fazer mais do que renovar apelos desesperados. Mas o que está ao alcance de todos é socorrer as vítimas da guerra. Como disse Guterres, “eu renovo meu apelo para os países encontrarem modos criativos de financiar as crescentes necessidades humanitárias e de recuperação em todo o mundo, e a dar generosamente e liberar imediatamente os fundos solicitados”.

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