Cassandra de ocasião

Os brasileiros que se virem para lidar com a carestia e o desemprego, porque do presidente só é possível esperar desculpas esfarrapadas e alarmismo oportunista

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2021 | 03h00

A inflação – que em setembro foi a maior (1,16%) para o mês desde 1994 – corrói mais a renda dos que menos podem, restringe o consumo, reduz os estímulos à produção e já assombra o governo incapaz de agir com eficiência e credibilidade diante das dificuldades que se acumulam. A seu estilo pernicioso de governar, marcado pela incapacidade de assumir responsabilidades que o cargo lhe impõe, o presidente Jair Bolsonaro adicionou outra característica nociva: uma espécie de alarmismo preventivo. Trata-se de anunciar que, segundo suas próprias palavras, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Mas, se isso ocorrer, não será por falta de aviso. Será, como sempre ele diz, por culpa dos outros.

Bolsonaro tenta se justificar alegando que a alta dos preços não é um problema só do Brasil, é mundial. “Está reclamando que está alto aqui? Lá (nos Estados Unidos e em outros países) também está. Essa crise é no mundo todo. Não é só no Brasil”, disse, na sua live das quintas-feiras.

Cobrando dos que o criticam as soluções que competem sobretudo ao governo, aproveitou para espalhar alarmismo ao prever que, por causa da eventual escassez de fertilizantes, a produção agrícola brasileira poderá ser afetada, o que fará subir ainda mais a inflação. E tudo será por culpa da China, que reduziu a produção de fertilizantes. Apresenta, assim, argumentos prévios para se defender de problemas com que, já sabe, continuará a se defrontar no futuro próximo e que ele não tem a menor ideia de como resolver.

A última vez que a inflação do mês de setembro foi mais alta do que a deste ano ocorreu em 1994, apenas dois meses depois da entrada em vigor do Plano Real. Era o momento em que os brasileiros ainda se acostumavam a uma vida econômica completamente diferente da que haviam enfrentado, até com hiperinflação.

Nos 12 meses até setembro deste ano, a inflação alcançou 10,25%, a mais alta desde fevereiro de 2016, quando o País enfrentava a crise política que culminaria, dali a seis meses, no impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, tem sido impulsionada por combustíveis, gás de cozinha e alimentos. É um problema mundial. Cotações de commodities energéticas e agropecuárias batem recordes.

O governo Bolsonaro vem dando, a seu modo equivocado, atenção ao preço da gasolina e do diesel, por causa do interesse particular do presidente com a situação dos caminhoneiros. Para fugir de suas responsabilidades, Bolsonaro e seus seguidores, inclusive o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), atribuem a culpa aos governos estaduais. Os combustíveis estão caros, dizem, por causa do ICMS, tributo de natureza tipicamente estadual na atual estrutura tributária nacional.

É falso. Os combustíveis estão caros, na verdade, porque a cotação do petróleo em dólar está nos seus níveis mais altos dos últimos anos. E a cotação do dólar em reais está igualmente em seu nível mais alto em muitos anos por causa da instabilidade política, das incertezas sobre o equilíbrio das finanças públicas e da falta de credibilidade das ações do governo na área econômica.

Assim, se sobe em outros países, a gasolina sobe mais no Brasil porque as oscilações frequentes no mercado mundial são multiplicadas por uma taxa de câmbio que reflete o clima gerado por um governo incompetente e criador de tensões e conflitos.

Da mesma forma, por isso, o preço da alimentação no prato do brasileiro sobe mais do que as cotações internacionais dos principais produtos de exportação do agronegócio nacional. Só em setembro o frango inteiro ficou 4,50% mais caro, e o frango em pedaços, 4,42%.

O custo da habitação também subiu muito (2,56% no mês) por causa principalmente da alta da energia elétrica, de 6,47% no mês. Também neste caso o papel do governo Bolsonaro é nítido: nada foi feito tempestivamente para enfrentar a prevista crise hídrica, e agora o País vive sob o risco de desabastecimento. 

Os brasileiros que se virem para lidar com a carestia, a escassez e o desemprego, porque do presidente da República só é possível esperar desculpas esfarrapadas e alarmismo oportunista. Como disse Ulysses Guimarães, “estadista é o arquiteto da esperança, não é coruja que pia mau agouro nem Cassandra de catástrofes”.

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