Cautela, depois da boa surpresa

Confederação Nacional da Indústria avaliou como sinal positivo desempenho do PIB, puxado pela expansão de 0,7% da produção industrial

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 03h00

Setembro começou com um pouco mais de otimismo no mundo empresarial e financeiro, mas as projeções permanecem muito prudentes, mesmo depois da boa surpresa sobre o segundo trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,4%, segundo o balanço oficial. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou como sinal positivo esse desempenho, puxado pela expansão de 0,7% da produção industrial, mas adicionou uma advertência. A retomada do crescimento, de acordo com o comentário, continua a depender de duas linhas de ação – medidas urgentes de estímulo ao consumo e reformas de longo alcance, como a dos impostos e contribuições. 

Os novos dados do PIB foram divulgados na quinta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No dia seguinte foram colhidos os dados da pesquisa Focus, conduzida semanalmente no mercado pelo Banco Central (BC). Em uma semana o crescimento do PIB projetado para 2019 passou de 0,80% para 0,87%. Houve melhora das expectativas para este ano, sim, mas nenhuma explosão de otimismo. Além disso, as taxas de expansão estimadas para os anos seguintes ficaram inalteradas: 2,10% em 2020, 2,50% em 2021 e 2,50% em 2022. 

Mas a pesquisa trouxe um detalhe mais feio sobre o cenário econômico: o aumento da produção industrial continua projetado em 0,08% para este ano. Quatro semanas antes a expectativa, já muito modesta, era de um avanço de 0,23%. Os números calculados para os três anos seguintes são mais altos, mas ainda pouco entusiasmantes: 2,50%, 2,75% e 2,50%. 

Os números mais positivos, depois dos dados do PIB, foram os da pesquisa com gerentes de compra da indústria, realizada mensalmente pela IHS Markit, multinacional especializada na produção de informações e de cenários para decisões empresariais. A empresa realiza pesquisas semelhantes em dezenas de países. 

Segundo a IHS Markit, o Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla original, em inglês) subiu de 49,9 pontos em julho para 52,5 no mês passado e retornou, portanto, ao território positivo. A separação é demarcada pela linha de 50 pontos. O levantamento mostrou maior produção, criação de empregos e aumento das encomendas de insumos, como matérias-primas e bens intermediários. A produção atingiu o maior nível em cinco meses e houve criação líquida de empregos pela primeira vez desde abril, segundo comentou a economista Pollyana de Lima ao apresentar os dados. 

Ela chamou a atenção para alguns fatores positivos indicados pelas fontes consultadas. Preços melhores foram obtidos por meio de negociações bem-sucedidas e contatos com fornecedores alternativos. Isso compensou parcialmente os aumentos de custos de itens importados, decorrentes da depreciação do real. Com melhora de custos, exportações em alta depois de meses de estagnação e maior expansão das vendas, foi possível, de acordo com o balanço resumido pela economista, ampliar os estoques de insumos. 

Mas seria prematuro dizer, segundo ela, se começou uma recuperação duradoura depois de tanta instabilidade do setor. As próximas pesquisas deverão mostrar, segundo acrescentou, o grau efetivo de fortalecimento da indústria. 

Essa cautela é semelhante à dos analistas da CNI e do mercado. No caso da CNI, chama a atenção a cobrança de duas linhas de política, uma de curto prazo, destinada a sustentar por algum tempo a recuperação iniciada no segundo trimestre, e outra de longo prazo, para aumentar o potencial de crescimento e permitir uma expansão mais veloz e mais segura por vários anos. 

Até recentemente o governo desprezou ações de efeito imediato. Ao desprezá-las, a equipe econômica rejeitou medidas capazes, na linguagem da CNI, “de dar arranque ao crescimento econômico”. Desprezou igualmente, é importante lembrar, o drama de desempregados, subempregados e desalentados, 24,7 milhões de trabalhadores no trimestre de maio a julho. Pode um governo digno desse nome tratar como irrelevante o drama desses milhões e de seus dependentes? 

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