Chile é alerta sobre a falta de reformas

As eleições presidenciais confirmaram as inclinações extremistas e antipolíticas já manifestadas na Assembleia Constituinte

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2021 | 03h05

Desde os protestos de 2019, o Chile tem sido dominado por humores antipolíticos e extremistas, sobretudo à esquerda. Nas eleições da nova Constituinte, os 68% das cadeiras para candidaturas independentes confirmaram a primeira inclinação e os 35% à extrema esquerda, a segunda. O primeiro turno do pleito presidencial não só não arrefeceu os ânimos, como inflamou o extremo à direita.

Agora, os chilenos escolherão entre o progressismo radical de Gabriel Boric e o conservadorismo duro de José Antonio Kast. Se vencer o primeiro, será o governo mais à esquerda desde a curta e caótica gestão comunista de Salvador Allende; o segundo, será o mais à direita desde a longa ditadura militar de Augusto Pinochet.

Ante os protestos contra a precariedade dos serviços públicos e da cobertura social, o governo promoveu em 2020 um plebiscito para decidir se o Chile deveria reescrever sua Constituição. Era uma oportunidade de oferecer melhores respostas ao populismo e à anarquia das ruas e de realizar a necessária superação da Constituição de Pinochet. Mas o fracasso das coalizões tradicionais da esquerda e da direita reflete desproporcionalmente a revolta e o idealismo das novas gerações em desfavor das conquistas das gerações passadas. 

Em que pesem os justos anseios por mais igualdade e melhores serviços, nos últimos 30 anos o PIB per capita, o maior da América Latina, quase triplicou e a pobreza e a desigualdade caíram além da média regional. Apesar da Constituição de Pinochet favorecer a direita, a esquerda esteve por mais tempo no poder.

A configuração que sairá do experimento constitucional é imprevisível. Os colapsos nas coalizões da extrema esquerda sugerem a possibilidade de um reequilíbrio. Ainda assim, a pressão irrealista por direitos sociais, inflamada por uma militância anticapitalista, pode criar uma Carta fiscalmente insustentável.

Essa tendência parecia sacramentada no início da corrida eleitoral com o favoritismo do ex-líder estudantil de 35 anos, Gabriel Boric. Ele recuou de propostas como a anistia para imigrantes ilegais ou a exigência de que metade dos conselhos das empresas fosse de operários. Mas, mesmo que se incline à moderação, seus aliados comunistas dificilmente tolerarão recuos em outras medidas radicais, como um aumento de impostos equivalente a 8% do PIB, transportes públicos gratuitos ou a abolição de aposentadorias privadas.

O apelo à lei a à ordem de Kast representa a reação aos excessos dos protestos. Mas sua plataforma manifesta uma ênfase igualmente excessiva e não majoritária em pautas à direita, como o nacionalismo ou a redução de tributos. Se a vitória de Boric pode exacerbar as piores inclinações da Constituinte, a de Kast pode conflitar com as melhores.

A situação no Chile é um alerta sobre a importância de um reformismo constante e realista, e dos riscos envolvidos na sua falta. O país vive o perigo não só de não construir um contrato social mais moderno, equilibrado e equitativo, mas de perder as conquistas logradas sob sua velha Constituição.

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