Choques de preços

Energia eleva pressão inflacionária num quadro já afetado por ações do governo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 03h00

Um novo choque de preços – mais um, num ano de inflação acelerada – vai aparecer nas contas de eletricidade, com o reajuste de 52% na bandeira tarifária. A taxa extra foi elevada de R$ 6,24 para R$ 9,49 para cada 100 quilowatts-hora consumidos. A decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foi anunciada ontem. A bandeira vermelha já estava no nível 2, pressionando os custos de famílias e empresas. Com chuva escassa e pouca água para alimentar as hidrelétricas, os brasileiros têm de pagar pela energia mais cara das usinas térmicas. Para evitar racionamento, o governo recomenda cuidado com as torneiras e chuveiros e parcimônia no uso da luz, de eletrônicos e eletrodomésticos.

A crise hídrica e seus efeitos sobre o custo da eletricidade e, portanto, sobre a inflação, já estavam na pauta do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). O tema apareceu com destaque na ata da última reunião do Comitê, quando a taxa básica de juros, a Selic, foi elevada de 3,5% para 4,25%. Novos aumentos ocorrerão e a taxa, segundo projeção do mercado, poderá chegar a 6,5% até o fim do ano. Dinheiro mais caro é a arma principal usada pelos bancos centrais para conter a escalada dos preços.

Também pela estimativa do mercado, a inflação de 2021 deve chegar a 5,9%. O Banco Central projeta, por enquanto, 5,8%. Os dois números superam o limite de tolerância, de 5,25%, e ficam bem acima do centro da meta, de 3,75%. Essas projeções se referem ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), sinalizador principal das políticas oficiais.

Inflação disparada inferniza as famílias, principalmente as pobres, complica a gestão empresarial e acaba impondo graves problemas às finanças públicas, embora possa, a curto prazo, elevar a receita tributária e dar algum conforto ao governo. Mas esse conforto é passageiro e enganador. O ministro da Economia, Paulo Guedes, deveria estar muito atento a esse tipo de risco. A alta de preços, já muito intensa, poderá tornar-se bem mais perigosa, nos próximos meses, se as finanças públicas ficarem subordinadas ao jogo político e aos objetivos eleitorais do presidente Jair Bolsonaro.

O custo da eletricidade já tem pressionado e continuará a pressionar a inflação, mas esse é apenas um dos fatores de risco. Os desajustes no atacado permanecem como grande ameaça, afetando os custos de produção e atingindo, em graus variáveis, os preços pagos pelo consumidor. Em junho, os aumentos no atacado perderam impulso e ficaram em 0,42%. Em maio haviam atingido 5,23%. Os dados são do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), da Fundação Getulio Vargas (FGV). Dois fatores – a valorização do real e o recuo das cotações internacionais de commodities – fizeram os preços das matérias-primas brutas diminuírem 1,28% em junho, depois de terem subido 10,15% em maio, explicou o coordenador dos índices de preços da FGV, André Braz.

Mas ninguém pode garantir a duração dessa trégua. Além disso, o conjunto dos preços por atacado subiu 18,99% no ano e 47,53% em 12 meses. Qualquer novo aumento ocorrerá, portanto, sobre uma base já muito alta. Depois, a movimentação do câmbio, importante componente do sistema de preços, depende de fatores internos e externos. Internamente, o dólar pode ser afetado por incertezas sobre a política econômica, o equilíbrio fiscal, a dívida pública e as tensões políticas. Todos esses fatores contribuíram, por mais de um ano, para manter o dólar acima de R$ 5,00. A acomodação cambial só ocorreu recentemente.

Fator inflacionário presente por vários meses, o dólar caro resultou em grande parte da insegurança gerada pelo presidente. Dinheiro deixou de entrar e dinheiro foi mandado para fora em reação a suas atitudes, com destaque para a política antiecológica. Envolvido com o orçamento paralelo e com o escândalo da Covaxin, o presidente permanece no foco dos investidores, podendo afetar o movimento de capitais, o câmbio e a formação de preços, com efeitos muito piores que os do aumento do custo da energia elétrica.

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