Cidades em movimento

Numa cidade como São Paulo, com 11 milhões de habitantes e 100 anos de crescimento descomunal e descontrolado, as soluções mais profundas passam por uma reformulação da malha urbana

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 03h00

Promovido anualmente pelo Estado, o Summit de Mobilidade Urbana é o maior evento sobre o tema do País. A edição de 2019, realizada no dia 30 de maio em parceria com a empresa de aplicativos 99, comprovou que é também o mais abrangente, com pesquisadores e gestores públicos e privados entrelaçando tópicos como desenho viário, parcerias público-privadas, tecnologia, diversidade de meios de transporte e relações entre classes, gerações e gêneros. Essa polivalência é indispensável quando se enfrenta um desafio como o da mobilidade urbana, multifacetado e móvel por natureza.

A diversificação da locomoção permeou todos os debates. “No cenário ideal, nós todos teríamos a possibilidade de combinar o transporte certo para cada tipo de viagem, com o perfil de cada usuário”, disse Timothy Papandreou, fundador da consultoria Emerging Transport Advisors. “Os carros são feitos para nos levar mais rápido a distâncias longas”, complementou. “Se a maior parte do nosso movimento é em distâncias curtas, o carro não é o meio correto.”

É alvissareiro constatar que há uma grande conscientização nesse sentido, sobretudo entre os jovens. Segundo um levantamento do Instituto Ipsos, para a maioria dos entrevistados a prioridade na mobilidade urbana deveria ser uma melhor integração entre os transportes. 30% abririam mão do carro em prol de outros meios. Entre as principais razões estão os gastos e a busca por um novo estilo de vida.

Essa transformação já está em curso, talvez mais do que suponha o senso comum. A pesquisa aponta que os brasileiros usam em média três modalidades de transporte por semana – 70% andam a pé, 46% utilizam ônibus e 43% o carro particular, enquanto 18% utilizam os aplicativos.

É consenso entre os especialistas que a diminuição do número de carros nas ruas e a melhoria dos espaços para pedestres, bicicletas e outros modais têm consequências não só para a redução do trânsito, mas para a saúde física e mental, a diminuição da mortalidade, a preservação ambiental e a economia.

Quanto às políticas públicas para tanto, não há receitas fáceis. Não por serem distantes do que o bom senso dos habitantes das cidades intui, mas porque, em se tratando de mobilidade urbana, elas só têm efeito se bem coordenadas entre os diversos agentes envolvidos, sobretudo através de um tráfego contínuo entre a prefeitura e os cidadãos. “As políticas públicas que têm longevidade, que mobilizam e engajam pessoas e que sobrevivem às mudanças de governo são aquelas que mexem com a atitude da população”, afirmou o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT).

Em quatro anos, a capital cearense reduziu em 40% as mortes no trânsito. Como exemplo de ações coordenadas, Cláudio citou a redução de velocidade, a fiscalização, a criação de áreas de trânsito calmo e campanhas educativas. Além disso, é preciso oferecer opções. A cidade tem hoje o melhor índice de bicicletas compartilhadas, cuja utilização é estimulada por pacotes de preços integrados às passagens dos transportes públicos.

Numa cidade como São Paulo, com 11 milhões de habitantes e 100 anos de crescimento descomunal e descontrolado, as soluções mais profundas passam por uma reformulação da malha urbana. “Em cidades como São Paulo há vários centros. O ideal é transformar cada um deles em pequenas vilas”, disse Papandreou. Isso implica fazer com que os primeiros três quilômetros em torno a estes centros sejam como pequenas cidades, com praças, serviços, espaços públicos e estrutura para pedestres.

Talvez mais do que soluções, o Summit deixe desafios. Como a tecnologia afetará a mobilidade urbana? Como regulamentar a pluralidade de modais? Como a flexibilização das relações de trabalho mudará a circulação? Não há respostas prontas, porque cada cidade é como cada pessoa: um ser vivo em transformação. O estimulante é perceber que a questão da mobilidade urbana está, por assim dizer, em plena movimentação.

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