Cidades saudáveis

Possibilidade de se manter fisicamente ativo deveria ser priorizada no planejamento urbano

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 03h00

Como parte do programa Cidades Saudáveis, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma série de diretrizes para orientar gestores, urbanistas e cidadãos a praticar “uma abordagem holística da saúde urbana”, de modo a responder ao desafio: como tornar uma cidade saudável?

Sete tópicos são abordados por meio de estudos de casos coletados pela OMS em prefeituras de todo o mundo: saúde mental, acidentes de trânsito, violência urbana, atividade física, qualidade do ar, dieta saudável e terceira idade.

Naturalmente, muitas das medidas aventadas envolvem intervenções longas, complexas e custosas em infraestrutura e na malha urbana. Mas é interessante notar quantas possibilidades há de se transformar o ambiente urbano a um custo mínimo ou mesmo zero, simplesmente com conscientização, mudança de comportamento ou pela ocupação de velhos espaços com novas ideias.

Por exemplo, pesquisadores da Universidade Cardiff, no País de Gales, constataram que em muitos países boa parte da violência urbana que resulta em socorros emergenciais não é conhecida pelas forças policiais. A partir disso, desenvolveram um método de coleta de dados em prontos-socorros sobre os horários e locais de agressões, uso de armas, acidentes e outras ocorrências. A identificação desses pontos críticos levou à modificação de muitas rotas de patrulha policial, pontos de iluminação, medidas de proteção aos pedestres, estratégias de segurança nas escolas e outras atuações preventivas. Na Grã-Bretanha, a violência que leva a internações hospitalares é hoje, em média, 42% menor nas cidades que implementaram o Modelo Cardiff em comparação com as demais, e a violência grave registrada pela polícia é 32% menor.

Na busca por hábitos alimentares saudáveis, a OMS constatou que o simples fomento à agricultura urbana e hortas comunitárias ou escolares estimula a produção local de alimentos não processados e induz os cidadãos a planejarem dietas mais equilibradas.

A OMS disponibiliza também valiosos instrumentos para o que se poderia chamar de “planejamento urbano baseado em evidências.” É o caso do programa para o desenvolvimento de cidades adequadas às necessidades dos idosos, que organizou um método multifacetado por meio do qual gestores ou quaisquer cidadãos podem diagnosticar em que medida um determinado ambiente urbano é ou não amistoso aos idosos e a partir daí buscar soluções.

Há muito as ciências comprovaram o que o senso comum sempre soube: que exercícios físicos são essenciais para a boa saúde física e mental. Mas manter-se fisicamente ativo pode ser desafiador nas cidades. A OMS estima que ao redor do mundo 3 em cada 4 adolescentes não se exercitam suficientemente.

A possibilidade de se manter fisicamente ativo deveria ser priorizada no planejamento urbano, de modo que as pessoas possam integrar o exercício em suas vidas, por exemplo, pedalando ou caminhando para ir ao trabalho. Escolas deveriam fornecer ambientes para que as crianças se exercitem antes, durante e depois das aulas. Em 2010, Istambul decidiu que deveria ser mais fácil circular a pé, e passou a implementar medidas para desacelerar o tráfego, criar mais conexões com a sua orla e transformar ruas menores em passarelas.

Boa parte da tarefa à qual a OMS se propõe é simplesmente relembrar o óbvio, mas que foi obnubilado pela expansão urbana em doses industriais, a saber, que todos, gestores e cidadãos comuns, precisam enxergar suas cidades e interagir com elas a partir de uma escala humana. Isso pode parecer um truísmo, mas, para ficar num exemplo corriqueiro, quanto da malha viária - ruas, calçadas, avenidas - não foi projetada exclusivamente com vistas à circulação de automóveis e não de indivíduos? Como conclui a OMS, “no fim das contas, cidades que se lembram que foram em primeiro lugar projetadas por pessoas, para pessoas, têm maior probabilidade de evoluir para um modo de vida mais holístico”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.