Ciro Nogueira, o intocável

Envolvido nas suspeitas de corrupção no MEC, ele já deveria ter sido exonerado. Se continua na Casa Civil, é sinal de que sua conduta tem a aprovação de Bolsonaro

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2022 | 03h00

É absolutamente constrangedor que, depois de tudo o que veio à tona, Ciro Nogueira continue no governo. Deveria ter sido imediatamente demitido. Não cabe permanecer numa função pública de tamanha relevância – a chefia da Casa Civil – alguém envolto em suspeitas tão graves de mau uso de recursos públicos na pasta da Educação. A permanência do ministro do Progressistas expõe, de maneira contundente, a verdadeira natureza do governo Bolsonaro.

Não foi por livre e espontânea vontade, mas, quando as circunstâncias políticas o exigiram, Jair Bolsonaro exonerou, sem pestanejar, ministros da chamada ala ideológica do governo. Foi o que ocorreu com Abraham Weintraub (Educação), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e, mais recentemente, Milton Ribeiro (Educação). Todos esses nomes, que faziam parte do núcleo íntimo do bolsonarismo, caíram. No entanto, Ciro Nogueira mantém-se intocável.

O presidente Bolsonaro não pode nem sequer alegar que não são graves as suspeitas envolvendo seu ministro da Casa Civil. Afinal, foram suspeitas semelhantes que derrubaram o último ministro da Educação.

Evidencia-se, assim, uma relação especial entre Jair Bolsonaro e Ciro Nogueira, relação esta que não se abala nem mesmo após a revelação de todas as nebulosas transações no Ministério da Educação. Vale lembrar que a Casa Civil é a essência de um governo, sendo sua chefia o cargo de confiança por excelência. A permanência de Ciro Nogueira na pasta indica que Jair Bolsonaro continua nutrindo inteira confiança no líder do Progressistas. De forma prática – com obras, e não meras palavras –, o presidente Bolsonaro põe a mão no fogo por Ciro Nogueira, vinculando-o ao seu governo.

A atitude de Jair Bolsonaro, como se as recentes revelações sobre Ciro Nogueira não afetassem sua confiança no líder do Progressistas, transmite uma mensagem inequívoca à população: a de que nada disso é novo para Bolsonaro. Caso contrário, se o mau uso de dinheiro público envolvendo o Ministério da Educação fosse uma surpresa, o presidente teria todo o direito de se sentir traído por Ciro Nogueira. Não é assim que Jair Bolsonaro tem reagido. A ter em conta os atos do presidente, parece que tudo vinha funcionando tal como o Palácio do Planalto esperava, não havendo nenhum motivo para mudança na Casa Civil.

A incrível estabilidade de Ciro Nogueira no governo – nada parece abalá-la – faz recordar as circunstâncias nas quais ele assumiu a Casa Civil. Jair Bolsonaro não apenas entregou o posto mais sensível da administração federal ao líder do Centrão – nem Dilma Rousseff, em seus momentos de maior fragilidade, atuou assim –, como aumentou seus poderes. Com todo o rigor, pode-se dizer que Ciro Nogueira é o superministro do governo Bolsonaro.

Em janeiro deste ano, Jair Bolsonaro editou um decreto determinando que atos relacionados à gestão do Orçamento público precisariam ter aval da Casa Civil. Com isso, qualquer decisão sobre custeio, investimento, transferência, orientação ou reorientação de recursos ficou “condicionada à manifestação prévia favorável” de Ciro Nogueira. A concessão de tal poder à Casa Civil representou uma mudança no sistema vigente há quase três décadas, em que a equipe econômica era a responsável por dar a última palavra em relação ao Orçamento. Na ocasião do decreto, o Ministério da Economia reconheceu que a tal delegação à Casa Civil era inédita.

Bolsonaro entregou as chaves do Orçamento a Ciro Nogueira e, a despeito de todas as revelações das últimas semanas sobre o líder do Centrão, parece determinado a manter as coisas exatamente do jeito que estão. Ou seja, Ciro Nogueira deve estar fazendo o que e como o seu chefe gostaria que fizesse.

Ao manter Ciro Nogueira na Casa Civil, Bolsonaro debocha da moralidade pública e da população. Na alma do governo, encontra-se alguém cuja atuação política está diretamente relacionada à corrupção na pasta da Educação. Não apenas há corrupção no governo, como Bolsonaro vê tudo com bons olhos, sem necessidade de mexer em nada.

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