Começa a batalha pela paz

O acordo entre EUA e Taleban é só o primeiro passo do caminho rumo à paz no Afeganistão

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 03h00

Após 18 anos, um acordo de paz com o Taleban põe fim à guerra dos Estados Unidos no Afeganistão. Ao menos formalmente. Na prática, é apenas o começo do fim, que, em tese, deve se consumar em 14 meses. Neste período os norte-americanos se comprometeram a retirar todas as suas forças do Afeganistão, começando com cerca de 4 mil soldados em 135 dias, e reduzindo gradualmente os restantes 8.600, juntamente com os 39 mil que compõem a coalizão aliada. Os EUA buscarão o endosso do Conselho de Segurança da ONU a fim de remover as sanções contra o Taleban. Em troca, os líderes talebans devem romper seus laços com a Al-Qaeda e outros grupos terroristas e iniciar negociações com o governo afegão para pôr fim à guerra civil e reintegrar-se na política nacional.

O conflito começou logo após o 11 de Setembro de 2001 como parte da caça à Al-Qaeda de Osama bin Laden, protegida pelo Taleban, que à época controlava boa parte do Afeganistão. O Taleban logo foi derrubado e quando Bin Laden foi morto, em 2011, a Al-Qaeda estava entocada no Paquistão e muito mais debilitada. Mas o conflito se tornou cada vez mais confuso. Já em 2003, o secretário de defesa Donald Rumsfeld admitia em um dossiê recentemente revelado não ter “nenhuma visibilidade de quem são os vilões aqui”. Doze anos depois, o general Douglas Lute, que serviu sob Bush e Obama, confidenciou: “Não sabemos o que estamos fazendo”. Foi o conflito mais longo da história dos EUA, deixando mais de 3 mil de seus soldados mortos no solo afegão, ao custo de quase US$ 1 trilhão para seus contribuintes. Com o tempo, ficou claro que a vitória americana não era uma opção.

Mas a verdade dramática é que agora tampouco é claro se a paz é uma opção. O Afeganistão está em guerra há 40 anos, e pode-se estimar o quão distante está do seu fim pelas expectativas enumeradas na declaração oficial da Otan: “Esperamos agora o começo de negociações intra-afegãs que levem a um acordo de paz duradouro e abrangente que ponha fim à violência, salvaguarde os direitos humanos de todos os afegãos, incluindo mulheres e crianças, sustente o Estado de direito e assegure que o Afeganistão jamais sirva novamente de porto seguro a terroristas”.

O acordo previu a liberação de 5 mil prisioneiros talebans. Mas menos de 24 horas depois o governo afegão, que não participou das negociações, declarou não estar obrigado a nada antes de pactuarem um cessar-fogo. Tampouco é claro como o Taleban será reintegrado às forças de defesa e à vida política nacional – muito menos como isso será compatível com os direitos das mulheres afegãs, que nos cinco anos de domínio taleban sofreram sob a mais bárbara interpretação da lei islâmica. Mesmo na semana de paz estabelecida para o acordo, o Taleban teve dificuldades de controlar suas várias facções, e com o tempo as mais radicais podem estender sua simpatia aos líderes da Al-Qaeda e outros jihadistas. Muitos temem que o Taleban esteja apenas dissimulando um interesse pela paz para retomar o poder pelas armas.

“A verdadeira chave para o Afeganistão não se precipitar em uma guerra civil ainda mais longa é o grau de disposição dos EUA e da Otan para financiar e treinar as forças de segurança afegãs a longo prazo”, disse ao New York Times o almirante americano e ex-comandante da Otan James G. Stavridis. A capacidade da comunidade internacional e em especial dos americanos de mobilizar o governo e as alas moderadas do Taleban para reprimir terroristas e evitar o recrudescimento da guerra civil é o ponto crítico do acordo.

O caminho para a paz é longo e incerto, mas ao menos despontou uma luz no fim do túnel. Há o suficiente para nutrir as esperanças mais idealistas. O realismo, porém, impõe admitir que, se há alguma situação em que o bordão chauvinista de Theodore Roosevelt é pertinente, é na retirada do Afeganistão: “Fale com suavidade e carregue um grande porrete; você irá longe”.

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