Comida ainda é o problema

Com o consumidor tão apertado, não há como falar de inflação de demanda

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 03h00

 Como o coronavírus, a inflação ataca sem preconceito e sem discriminação. Comer carne ficou 29,51% mais caro nos 12 meses terminados em fevereiro. Para o vegetariano a pancada também foi forte. Os preços de hortaliças e verduras subiram 23,30% nesse período. Cereais, leguminosas e oleaginosas, grupo onde se enquadram arroz, feijão e trigo, encareceram 57,83%. No caso de leite e derivados, a alta acumulada chegou a 15,44%. Na média, o custo de alimentação e bebidas aumentou 15% no intervalo de um ano. Convém pensar nesses dados para avaliar os números atualizados da inflação oficial, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), publicados na quinta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Comida e bebida ainda são, para a maior parte das famílias, um dos itens principais do orçamento mensal. Além disso, comer é algo especialmente complicado neste país. O desemprego no Brasil é um dos maiores do mundo capitalista, o dobro do registrado, em média, nos 37 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Além disso, os mais pobres perderam desde o começo do ano o auxílio emergencial. O auxílio deve voltar, mas será mais limitado que o de 2020. Apesar de tudo, o IPCA de fevereiro parece ter trazido uma notícia animadora sobre o custo da comida. Animadora, mesmo?

No mês passado o IPCA subiu 0,86%, a taxa mais alta para fevereiro desde 2016, quando a variação foi de 0,90%. Encareceram oito dos nove grandes itens considerados na pesquisa. O item alimentação e bebidas também subiu, mas bem menos que em janeiro. De um mês para outro a taxa recuou de 1,02% para 0,27%. A desaceleração é clara, mas, antes de festejá-la, convém observar alguns detalhes.

Para comer e beber, o consumidor brasileiro enfrentou uma alta de custos de 15% nos 12 meses até fevereiro. Alguns componentes da alimentação, como carnes e verduras, subiram além dessa média. A desaceleração ocorreu, portanto, quando o nível de preços já era muito alto.

Um exemplo simples pode esclarecer esse ponto. Um carro sobe o espigão da Avenida Paulista a partir do Ibirapuera e perde impulso uma ou duas quadras antes do topo. A velocidade diminui, mas o carro já está lá em cima. Qualquer movimento depois, digamos, do penúltimo quarteirão, ocorrerá a partir de um ponto muito elevado. Houve algo semelhante, em fevereiro, na evolução do custo da comida.

Para avaliar a situação do consumidor e identificar seus maiores problemas é preciso considerar mais que os dados de curto prazo, como os de janeiro e fevereiro. Com alta de 2,28% no mês passado, o item transportes teve impacto de 0,45 ponto na formação do índice geral (0,86%). Com variação de 0,27%, o grupo alimentação e comidas produziu efeito de apenas 0,06 ponto porcentual. Mas o gasto efetivo das famílias foi realizado com base em preços acumulados durante meses – muitos meses, em alguns casos.

A alta de alimentação e bebidas, 15% em 12 meses, foi a maior dos nove grandes itens cobertos pela pesquisa. A segunda maior variação, de 7,78%, foi do grupo artigos de residência, mas esse item pesa bem menos, no dia a dia, que habitação, transportes, saúde e cuidados pessoais e, naturalmente, alimentação e bebidas.

Com o resultado de fevereiro, a alta do IPCA chegou a 5,20% em 12 meses, superando a meta deste ano, de 3,75%, e quase batendo no limite superior de tolerância (5,25%). Números maiores ainda poderão surgir, estima-se no mercado. O dólar instável, com valores muito altos diante do real, poderá ser, como tem sido, um fator inflacionário. As ações do governo e o quadro político poderão influenciar o mercado cambial.

Falta verificar se o Banco Central (BC) tentará conter os preços elevando os juros básicos. Isso seria defensável se a inflação fosse atribuível à demanda, mas a situação dos consumidores impede essa explicação. Além disso, taxas maiores aumentarão os custos do Tesouro e poderão travar a reação econômica. Na próxima semana o BC anunciará sua nova decisão sobre os juros.

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