Comida cara volta a puxar a inflação

O encarecimento dos alimentos afeta mais duramente as famílias mais pobres, cuja renda vem sendo pressionada

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2022 | 03h00

Persistentemente alta e sem sinais de arrefecimento no curto prazo, a inflação é ruim para todos, pois se dissemina por todos os grupos de produtos e serviços, mas voltou a ser bem pior para os mais pobres. Em média, o preço da alimentação está subindo mais do que todos os demais componentes do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), uma prévia da variação mensal do principal indicador da evolução dos preços aferido pelo IBGE. Assim, as famílias que gastam proporcionalmente mais de sua renda para colocar comida na mesa são as que mais sofrem com a inflação. E as famílias nessa situação são as de renda mais baixa, as mais vulneráveis aos problemas que afetam o mercado de trabalho, como desemprego alto e rendimento real em queda.

O IPCA-15 de março subiu 0,95%, variação um pouco menor do que a de fevereiro (de 0,99%), mas a maior para o mês desde março de 2015 (de 1,24%), quando a economia do País mergulhava em profunda crise. Em 12 meses até março, a alta acumulada do IPCA-15 chega a 10,79%, praticamente o dobro da variação acumulada um ano antes (de 5,52%). A inflação vem se acelerando desde o início do ano passado e, apesar do endurecimento da política monetária conduzida pelo Banco Central (no período, a taxa Selic passou de 2% para 11,75% ao ano), continua alta e com sinais de que ainda pode subir.

Em boa parte desse período, a alta da inflação foi impulsionada pelos preços dos alimentos. Grande exportador de algumas das principais commodities agrícolas, o Brasil tem obtido resultados muito satisfatórios em sua balança comercial. Mas a elevação da cotação desses produtos no mercado externo teve impacto também sobre os preços internos, que até há pouco absorviam também o efeito da alta do dólar.

Boa parte desse impacto parecia superada. Mas riscos ao abastecimento mundial trazidos pela invasão da Ucrânia pela Rússia (dois dos principais países exportadores de trigo, milho e fertilizantes) criaram instabilidades que estão forçando novas altas. As consequências para o consumidor brasileiro estão sendo pesadas.

Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE registraram preços mais altos no IPCA-15. A difusão da alta ficou mais intensa em março do que em fevereiro. Mas o maior impacto sobre o resultado veio do grupo alimentação e bebidas, com alta de 1,95%, o que o torna responsável por 0,40 ponto porcentual da variação do IPCA-15. Se se considerar apenas os alimentos para consumo no domicílio, a alta foi ainda mais notável, de 2,51% (a alimentação fora do domicílio subiu bem menos, 0,52%).

Alguns produtos hortigranjeiros tiveram alta de mais de 40% entre fevereiro e março. Embora não conste do grupo de alimentos, o gás de botijão (parte do grupo habitação) também torna a alimentação em domicílio mais cara. Segundo o IBGE, a alta no mês foi de 1,29%.

Aumentos expressivos estão sendo observados também nos preços dos combustíveis. Outra consequência da guerra da Ucrânia é a volatilidade dos preços do petróleo, que há pouco alcançaram seu nível mais alto em muitos anos, oscilaram em seguida, mas continuam muito elevados. Era inevitável que os preços dos derivados no mercado interno também subissem.

Há pouco, a Petrobras anunciou correção de até 24% nos preços dos principais derivados (gasolina, óleo diesel e gás de botijão). Essa alta não deverá ser repassada integralmente ao consumidor final, e o repasse, ainda que não total, não é imediato. Analistas de índices de preços de instituições privadas estimam que, até agora, apenas metade do repasse chegou ao consumidor. É possível que o restante chegue até o fim do mês, o que tem levado esses analistas a rever, para cima, sua estimativa para o IPCA fechado para o mês de março. Há previsão de inflação de até 1,25% neste mês. Alívio, se houver, não deverá ser sentido antes de maio. Projeções privadas indicam melhora só no segundo semestre.

O Banco Central estima que o ciclo de aperto monetário acabará justamente em maio. Espera-se que não tenha de rever suas projeções.

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