Como nasce uma notícia falsa

Somente o jornalismo profissional é capaz de investigar à exaustão os fatos na busca da verdade

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 03h00

O Projeto Comprova foi uma coalizão de 24 veículos de imprensa, entre os quais o Estado, cujo objetivo era investigar a origem de notícias falsas ou enganosas amplamente compartilhadas nas redes sociais. Entre julho e dezembro de 2019, as redações desses veículos se debruçaram sobre 77 publicações que “viralizaram” na internet. Nada menos que 41% delas foram consideradas enganosas, isto é, fizeram uso de fotos e vídeos fora do contexto original, com a intenção clara de causar confusão. Além disso, 38% do total de publicações era inteiramente mentiroso, sem nenhuma correspondência com a realidade.

Os números impressionam, o que só confirma a extensão e a profundidade do fenômeno conhecido como fake news, que tem desafiado o jornalismo e a democracia.

Grupos cada vez mais influentes têm feito campanha sistemática contra a imprensa profissional e independente - com respaldo ou participação direta inclusive de alguns importantes chefes de Estado mundo afora -, procurando desmoralizar o trabalho de jornalistas e de veículos como intérpretes qualificados da realidade. A intenção é denunciar a imprensa como integrante de uma conspiração global destinada a acabar com as tradições e dar poder a subversivos em geral - em especial comunistas e minorias em geral, que seriam, segundo essa narrativa apocalíptica, os grandes sabotadores da moral judaico-cristã ocidental.

Esse ataque sistemático ao jornalismo e, por extensão, à própria noção de verdade tem como propósito minar a democracia. Sem referências sólidas e compartilhadas pela maioria dos cidadãos sobre o que é a realidade, resta só a desconfiança generalizada, tornando praticamente impossível a articulação dos consensos políticos para a implantação de políticas públicas abrangentes e duradouras. Nesse ambiente, vicejam o populismo e soluções autoritárias.

O trabalho do Projeto Comprova é valioso justamente porque se dedica a restabelecer o valor da verdade dos fatos, o que se tornou crucial ante o avanço dos liberticidas. Para esse fim, não basta simplesmente denunciar a falsidade de uma notícia. É preciso oferecer à sociedade em geral a possibilidade de conhecer a mecânica de uma fake news, ou seja, demonstrar como se constrói um boato com potencial de substituir a verdade nas redes sociais.

No site do Comprova (projetocomprova.com.br), há diversos relatos de investigações do grupo de veículos integrantes do projeto. Em todos os casos, procura-se conhecer a origem da informação inverídica e a trajetória do boato até ser compartilhado milhares de vezes - processo em que adquire aura de realidade.

Um exemplo muito interessante, do qual o Estado participou, é a investigação sobre o vídeo de um suposto navio venezuelano que estaria despejando petróleo no litoral nordestino. As imagens foram publicadas no dia 10 de outubro num perfil do Facebook simpático ao presidente Jair Bolsonaro e compartilhadas quase 7 mil vezes em um só dia - o governo, na época, chegou a sugerir que a Venezuela do ditador Nicolás Maduro estaria por trás do vazamento.

Na investigação do Comprova, tomou-se um frame (foto de um instante do vídeo) e, a partir dele, a equipe procurou na internet imagens semelhantes àquela - a chamada “busca reversa”. Outras pistas foram seguidas até que os jornalistas encontraram o vídeo original - era de um navio ao largo de uma praia em Portugal. Esse vídeo foi publicado em abril, antes, portanto do acidente com petróleo na costa brasileira. Além disso, o Comprova entrevistou o dono da página portuguesa que publicou o vídeo e obteve dele os metadados das imagens - isto é, os dados que permitem checar o dia e o local em que elas foram feitas -, para confirmar que era ele mesmo o autor das imagens. O Comprova atestou a veracidade do vídeo e seu contexto verdadeiro, demonstrando assim que a postagem do perfil bolsonarista no Facebook era falsa.

Como se observa, o Comprova transformou a crise causada pela onda de fake news em oportunidade não só para explicar como uma mentira é produzida, mas principalmente para demonstrar que somente o jornalismo profissional é capaz de investigar exaustivamente os fatos e ir além das aparências, em busca da verdade.

Tudo o que sabemos sobre:
fake news [notícia falsa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.