Compartilhamento inteligente

Segundo os reitores, a política de compartilhamento de equipamentos é semelhante ao modo de funcionamento dos aplicativos de táxi.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2019 | 03h00

Numa iniciativa inédita no País, as três universidades públicas paulistas – USP, Unicamp e Unesp – acabam de adotar uma política para colocar equipamentos e aparelhos de pesquisa à disposição de toda a comunidade acadêmica, inclusive para cientistas que não trabalham nelas. Como esses equipamentos custam caro, a ideia é evitar que fiquem parados, compartilhando seu uso num período de escassez de recursos públicos. Essa política foi inspirada na Inglaterra, onde universidades de ponta – como Cambridge, Liverpool e Birmingham – desenvolveram uma plataforma digital que permite encontrar materiais de pesquisa nas unidades mais próximas, propiciando com isso seu aluguel.

O compartilhamento de equipamentos de laboratórios foi a saída que as três instituições encontraram para tentar amenizar, em sua infraestrutura de pesquisas científicas, o impacto da crise fiscal. A estratégia tem quatro vantagens. Em primeiro lugar, com o uso mais racional de instrumentos de laboratórios já em funcionamento, como microscópios e tomógrafos, a USP, a Unicamp e a Unesp não precisam gastar recursos escassos para adquirir e manter novos laboratórios em suas unidades e departamentos. “Imagina ter um equipamento caríssimo e, do outro lado do campus, o mesmo, sem que os dois estejam 100% utilizados”, afirma o pró-reitor de pesquisa da Unicamp, Munir Skaf.

Em segundo lugar, a possibilidade de uso por cientistas de fora das três universidades pode resultar em receitas extraordinárias – uma antiga aspiração de muitos docentes e pesquisadores. Essa receita é prevista pela legislação estadual desde 2017 e pelo novo marco legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, que foi regulamentado em fevereiro de 2018. A legislação exige que o valor cobrado de entidades públicas seja inferior ao cobrado de entidades privadas.

Em terceiro lugar, a operação dos instrumentos em tempo integral serve para conectar cientistas, propiciar mais parcerias acadêmicas e para estimular o diálogo com a iniciativa privada, mediante contrapartidas financeiras. Em quarto lugar, um equipamento que fica em uso constante tende a estar em melhores condições do que aquele usado esporadicamente, como lembra Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das agências de fomento que vêm financiando a modernização dos laboratórios das três universidades públicas paulistas.

Segundo os reitores, a política de compartilhamento de equipamentos é semelhante ao modo de funcionamento dos aplicativos de táxi. Cientistas interessados em utilizá-los fazem uma busca na plataforma digital pelo nome do instrumento desejado e ela indica quais são as opões disponíveis. “Assim como o passageiro em busca de um motorista, basta o cientista fazer um cadastro e uma pesquisa simples na plataforma para encontrar um microscópio eletrônico de varredura”, afirma Sylvio Canuto, pró-reitor de pesquisa da USP. Só a Unicamp já tem 300 equipamentos de médio e grande portes cadastrados na plataforma digital, para serem usados de modo compartilhado.

“Todo setor, acadêmico ou não, vai saber que existe uma plataforma, onde pode buscar o que precisa. Não tem de entrar no site de cada laboratório”, diz Carina Ulsen, professora do Departamento de Engenharia de Minas e Petróleo da Escola Politécnica e coordenadora do Laboratório de Caracterização Tecnológica da instituição. Segundo ela, um microtomógrafo de seu laboratório, além de ser usado pelos pesquisadores da unidade, está à disposição de cientistas do Instituto Butantan, do Departamento de Biologia e de arqueólogos que fazem análise de crânios encontrados em escavações. 

Oportuna e importante, a iniciativa da USP, da Unicamp e da Unesp é mais uma demonstração do que cientistas, economistas, historiadores e sociólogos há muito tempo vêm dizendo. Quanto maior é uma crise financeira, mais ela estimula a criatividade daqueles que lutam pela sobrevivência.

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