Comunicar a verdade

É necessário sair da presunção cômoda do ‘já sabido’, diz o papa Francisco.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 03h00

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o papa Francisco apresentou algumas reflexões sobre a “comunicação humana e autêntica”, que podem ser úteis para os dias de hoje. Ante a abundância de desinformação, preconceitos e simplismos, observa-se uma grande demanda por informação confiável, baseada em uma apuração isenta dos fatos.

De alguma forma, pode-se dizer que os tempos atuais redescobriram a importância da verdade – desse conhecimento que, indo além do que seria mera versão de um acontecimento, expressa o mais possível a realidade tal como ela é, com suas complexidades, matizes e contradições. Nessa empreitada pela verdade, não há atalhos ou fórmulas prontas. “Para poder contar a verdade da vida que se faz história, é necessário sair da presunção cômoda do ‘já sabido’ e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspectos”, diz o papa Francisco.

A mensagem papal frisa a relevância, para uma informação confiável, do conhecimento pessoal. “Na comunicação, nada pode jamais substituir, de todo, o ver pessoalmente. Algumas coisas só se podem aprender experimentando-as”, diz Francisco, alertando que isso se aplica a todas as dimensões comunicativas da vida humana.

O papa Francisco diz que esse “ir e ver” os acontecimentos de perto é a sua “sugestão para toda a expressão comunicativa que queira ser transparente e honesta: tanto na redação de um jornal como no mundo da web, tanto na pregação comum da igreja como na comunicação política ou social”. Essa sugestão do papa, na verdade, uma recomendação, é atualíssima perante tantas falsas notícias, produzidas entre quatro paredes com o objetivo de confundir e enganar.

Nessa busca por conhecer a verdade, o papa Francisco menciona o papel do jornalismo e dos profissionais da comunicação. “Temos de agradecer a coragem e determinação de tantos profissionais, se hoje conhecemos, por exemplo, a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo, se muitos abusos e injustiças contra os pobres e contra a criação foram denunciados, se muitas guerras esquecidas foram noticiadas”, diz o papa.

“Seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes (dos profissionais da comunicação): um empobrecimento para a nossa humanidade”, diz Francisco. É interessante que, nos dias de hoje, ao mesmo tempo que se verifica uma demanda por verdade e informação confiável, seja necessário lembrar a importância do jornalismo.

Em alguns ambientes, tornou-se corriqueiro desautorizar a atividade da imprensa, como se ela dificultasse o acesso à verdade. O papa Francisco afirma o exato oposto. Sem o jornalismo, seria impossível conhecer muitas realidades que alguns desejam esconder.

Ao falar das novas tecnologias, Francisco lembra que as muitas oportunidades de interação geram também responsabilidade. Em concreto, menciona o cuidado que se deve ter ao compartilhar notícias e informações. “Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controle que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar”, diz o papa.

No fim da mensagem, Francisco cita umas palavras do personagem Bassânio, da peça O Mercador de Veneza, de William Shakespeare: “Graciano fala sempre uma infinidade de nadas, como ninguém em Veneza. Suas ideias razoáveis são como dois grãos de trigo perdidos em dois alqueires de palha: gastais um dia inteiro para encontrá-los; mas, uma vez achados, não compensam o trabalho”. Diz Francisco: “Pensemos na quantidade de eloquência vazia que abunda no nosso tempo, em todas as esferas da vida pública”.

Ante a abundância de mensagens e informações, é indispensável diferenciar o que é relevante e o que é confiável. Com o rigor e a independência do seu trabalho, o jornalismo tem muito a contribuir nessa tarefa.

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